Se William Shakespeare tivesse vivido no Rio Grande do Sul, é muito provável que o grande dilema de Hamlet fosse este: dançar ou não dançar.
Brincadeiras à parte, o assunto que quero começar a questionar hoje já vem incomodando esta criatura que vos escreve há alguns anos, como aquele fio de cabelo perdido que a gente não consegue identificar e tampouco esquecer, porque fica ali pinicando, coçando, inquietando.
Tenho pensado, cada vez com mais intensidade, que a população brasileira se divide em dois tipos de seres: os que dançam e os que não dançam.
Poderia arriscar dizer a humanidade ocidental divide-se, mas prefiro me ater ao que reconheço como minha cultura - a brasileira. Em especial comparação com a cultura gaúcha, que também reconheço como minha.
Como alguns aqui sabem, não tenho televisão em casa, mas eventualmente acontece de eu estar em casa de pessoas normais e poder acompanhar um programa. Hoje foi um desses casos.
O programa em questão era a reapresentação de um dos shows da Edição 2006 do Unimúsica, Projeto de Extensão da UFRGS, gravado pela TVE do Rio Grande do Sul, no Salão de Atos da UFRGS, em 09 de novembro de 2006.
Para quem não conhece ou não é de Porto Alegre, as edições do Unicultura costumam ser anuais, temáticas e mostrar, no formato de shows, trabalhos de artistas diversos, daqui do Sul e de outros lugares do Brasil.
Este show foi um pouco diferenciado dos demais do projeto em três aspectos: reuniu ao mesmo tempo e no mesmo palco um grande número de artistas, locais e de fora do Estado; intercalou, excepcionalmente, a execução das canções com sessões comentadas; e tentou evocar na platéia o espírito dos antigos bailes de carnaval.
O repertório era, portanto, basicamente formado por marchinhas clássicas dos carnavais dos anos 30, 40 e 50, e que perduraram, até pouco tempo atrás, nos bailes dos clubes das cidades.
Pois bem, eu assisti este show, como assisti diversos shows, alguns carnavais e micaretas no nordeste do Brasil, além de carnavais interioranos aqui no Estado mesmo. Acompanhei de perto tudo o que a mera transmissão televisiva não consegue abarcar e transmitir.
No caso deste show do Unicultura, os músicos encheram o espaço físico do palco com seus instrumentos, juntamente com os três cantores, Jussara Silveira, mineira de nascimento e baiana de coração, Monica Tomasi e Nelson Coelho de Castro, o branco mais preto de Porto Alegre - parodiando novamente a frase de Vinícius de Moraes.
No canto esquerdo do palco, completando o espaço, havia uma mesa com cadeiras e garrafas, numa alusão às mesas de bar, onde estavam sentados Arthur de Faria e Juarez Fonseca, os comentaristas, dois relevantes pensadores gaúchos da música brasileira, simpaticamente trajados com ternos brancos.
Ao longo do tempo, não sei se por saudades dos bailes, se por saudades do carnaval (era novembro) ou se por empolgação em função das próprias marchas, o público começou a participar intensamente dançando de pé nos corredores e espaços livres e chegando a subir meio eufórico ao palco, para dançar um tanto atrapalhado a última canção. A sensação que se tinha era de espíritos aprisionados em corpos que não pertenciam a eles e dos quais tentavam se libertar, desajeitadamente, sem muita ondulação nos movimentos, sem um encadeamento macio e harmonioso entre um gesto e outro. Claro que havia excessões - como em todo grande grupo.
O que pude constatar, mais uma vez, é que parece que os gaúchos, em grande parte e em maior quantidade do que em outros Brasis, crescem com um certo policiamento cerebral do corpo. E isto me parece ser antes um condicionamento oriundo de séculos de construção cultural do que uma herança genética em função da influência alemã, italiana ou indígena.
Não é à toa que o rock mais tradicional é cultuado ainda com muita força por estas plagas, ao contrário do que ocorre em outras regiões do Brasil. É um ritmo que dispensa completamente a ginga. Basta pular e balançar rigidamente o corpo em dois sentidos diametralmente opostos para dançá-lo dentro dos padrões sem destoar do grupo. E sendo assim, é conseqüentemente mais fácil de ser aprendido e executado em público, pelo mais tímido adolescente de qualquer parte do Estado, com ou sem o auxílio de bebida alcoólica.
No palco do Unicultura, o que se via eram cinco pessoas livres de instrumentos musicais oscilando constantemente entre manter a compostura ou sair movendo o corpo como sentisse vontade. Porque a marcha dá vontade de mexer o corpo. Ela é uma marcha - é feita para incitar o movimento. Mesmo quem diz não gostar definitivamente de carnaval, como o Arthur de Faria, ficava balançando as pernas, como se elas tivessem vida independente do resto do corpo. Isto acontecia também na platéia.
E acontece em diversos lugares e festas sulinas.
Até que chega um momento da noite em que as pessoas começam a beber excessivamente, o que não podia acontecer no caso do show. E quando Dionísio finalmente toma conta do cérebro, as porteiras culturais desta massa cinzenta se abrem e o corpo começa sua festa, atrapalhado, fora de forma, muitas vezes sem a intimidade necessária com o ritmo, mas se liberta.
A minha teoria é a seguinte: todo mundo que não tenha alguma limitação física grave demais, tem condições de dançar ou gosta de dançar. Só que há os que sabem, ou que se permitem, e os que não sabem, ou não se permitem. O que acontece é que o ato de dançar prende-se a conceitos socialmente muito limitado, diria até controlados. As pessoas não dançam como têm vontade, desencanadamente. Elas sabem que estão sendo observadas e julgadas pelos que não dançam e mesmo pelos que estão na pista, principalmente aqui no Sul.
Entretanto, dançar, na realidade, é basicamente mover o corpo ao ritmo de uma música de forma prazeirosa e/ou ritualística. A dança da qual estou falando (o ato de dançar) é aquela celebrativa, expressiva ou simplesmente catártica. Não é à dança como forma de Arte que me refiro, a estudada, a acadêmica ou profissional, mas simplesmente a dança como forma de catarse, de expressão - de comunicação, ou de comunhão.
Sendo assim, dentro da categoria dos que não sabem dançar eu colocaria:
- quem não se sente dentro das convenções do momento (os que não sabem dançar a dança da moda ou do grupo);
- quem não se sente confortável com o movimento do próprio corpo em público (foi inibido ou tolhido ao longo da vida pela própria família ou círculo social, que diziam que ele não sabia dançar, que ficavam rindo dele ou algo semelhante);
- quem sofreu, ou cresceu em contato com, alguma repressão religiosa, católica ou não;
- quem não se sente moral ou culturalmente liberado para mover seu corpo dentro deste contexto, o da dança (quem não consegue soltar o corpo para movimentá-lo de acordo com o que sente ouvindo a música ou conviveu somente com pessoas que não sabiam fazê-lo);
- quem aprendeu que atividades intelectuais (cerebrais) não são condizentes com atividades físicas (dança), etc.
Dentro da categoria dos que sabem:
- os que não sofreram nenhum tipo de influência negativa ou repressiva acerca do corpo ou conseguiram superá-las;
- os que tiveram contato com familiares ou pessoas que gostavam e incentivavam a dança ou que não reprimiam o movimento corporal;
- os que já têm desde pequenos natural pendência para a dança ou para o ritmo;
- os que vêm de culturas onde a ginga do corpo não é considerada tabu.
Há ainda a categoria dos que sabem dançar ou poderiam fazê-lo, mas preferem ficar na sua, tranqüilos, como parece ser o caso de alguns violeiros de raiz ou sertanejos.
O que para mim é mais difícil aceitar, o que eu não consigo assimilar, é que haja quem diz que não gosta, mas quando bebe, faz e gosta.
No nordeste do Brasil existem alguns facilitadores da liberação do movimento do corpo, entre os quais estão os seguintes: o carnaval é de rua; é com multidões; é sem muita ordenação geográfica; ninguém fica cuidando ninguém, nem censurando com o olhar; o corpo exposto faz parte do cotidiano das pessoas, não choca como no Sul; e os trios elétricos têm um poder sonoro de incrível sedução - a adrenalina sobe à cabeça com o ritmo da músicas e com a percussão.
Para quem nunca foi lá ou só viu pela televisão, eu digo que não dá para ficar parado muito tempo ao lado de um trio elétrico oficial. Logo você tem que sair dali, que é onde ficam dispostas as caixas de som. Os trios oficiais são os maiores que há. Cada um deles é enorme e com uma mega potência. A batida musical é tão cardíaca, acelera tanto a batida do coração, a pressão que sai das caixas de som é tão grande, tão física, que parece que vai arrebentar o peito, vai sufocar a gente.
A partir das minhas observações enquanto gaúcha, nascida no interior, depois de ter convivido com culturas brasileiras diferentes da sulina, depois de ter superado as minhas próprias limitações simplesmente pela imersão intensa e sem preconceito durante alguns anos em outras culturas rítmicas, eu constatei que a inflexibilidade e a resistência corporal à ginga, tão conhecida do povo gaúcho, talvez seja muito mais cerebral e ilusória mesmo do que física ou real.
Em todo caso, fica a dica: tente, tente, tente. Uma hora o corpo começa a ceder.
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