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domingo, 5 de julho de 2009

O condicionamento dos sentidos ou como é fácil ser enganado

Quando perdemos o contato com as coisas em sua forma artesanal ou original perdemos as referências para identificá-las e reconhecer quando são reais. Assim fica fácil ser enganado e pagar caro por um alimento ou objeto pretensamente natural ou pretensamente de qualidade.
Como reconhecer as madeiras verdadeiras, com suas texturas, consistências e cheiros, se somos criados no meio de compensados e enxertos fabricados industrialmente?
Como saber reconhecer a qualidade e o valor de um objeto, se perdemos o contato com sua fabricação? Se a sua confecção não é mais motivo de brincadeiras e laboratório para o aprendizado de nossos filhos, mas apenas a representação simbólica de um prédio de concreto, fechado e cercado, de onde ele sai pronto, em plástico descartável, para ser absorvido e estragado rapidamente, sem sequer estimular a reflexão sobre as etapas que precederam sua compra? (E, nesse caso, adianta falar para estas juventudes em preservação do Meio Ambiente e em preservação do patrimônio?)
Como reconhecer o pão caseiro ou integral, se consumimos apenas os alimentos industrializados ou de fabricação induzida das redes de supermercados?
Quando deixamos de fabricar o pão perdemos a percepção do seu peso, da cor, da textura da massa, do sabor. É fácil ser enganado por um falso pão “integral” escurecido artificialmente pela adição de café ou de outros ingredientes. E o pão é apenas uma referência, entre tantos falsos alimentos.
Quando deixamos de colher as frutas no pé, perdemos a referência do sabor e do cheiro que elas exalam ao serem colhidas, não reconhecemos mais como elas são. E acabamos por nos encantar e comprar frutas enormes, coloridas, padronizadas por crescimento artificial, Passamos, então, a achar que o gosto aguado e com textura de isopor é, sim, o seu sabor natural.
Ou, no caso dos laticínios, que a gordura do leite natural ou o azedo “estragado” da käzschmier são defeitos do alimento que deve ser jogado fora por estar “vencido”.
Poderíamos também questionar o uso das luvas para cozinhar em casa, tão propagado por uma certa apresentadora de televisão que, além de usar luvas, ainda permeia o seu programa matinal com todo o tipo de notícias deprimentes e trágicas que tenham ocorrido. Um alimento preparado entre uma notícia e outra de alguma mãe que perdeu seu filho, do enterro do Michael Jackson do momento ou do jovem que assassinou sua namorada deve ficar realmente “delicioso”.
Por que a comida das nossas avós era tão boa, deixando saudades nas memórias das gerações com mais de trinta anos?!
Porque era feita com ingredientes colhidos direto da horta, em panelas grossas, consistentes, que permitiam um cozimento mais saudável e saboroso. Porque tinha a ação da mão humana propiciando a adição das nossas energias, misturando, interagindo, jogando amor e estimulando a homogeneização dos ingredientes. Porque era permitido o tempo necessário para deixar o fermento agir, para deixar o sabor penetrar. Porque as nossas avós estavam concentradas no que estavam fazendo, sem pensar nos zilhões de notícias que hoje são propagadas, de forma direta ou por tabela, pelos meios de comunicação.
Nós ainda lembramos disso tudo, mas nossos netos já não vão mais ter essas referências sensoriais e comportamentais.
Fico com pena das crianças de hoje. Elas realmente acreditarão, em um futuro bem próximo, que tocar o alimento com as mãos pode fazer mal à saúde e que vaca é mesmo a embalagem do leite Tetra Pac.
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PS.: só pra constar, eu também sou fã do Michael Jackson.
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domingo, 5 de abril de 2009

Filosofias de vida

As coisas quase sempre não são o que parecem - é o tal do pré-conceito. Por isso que eu gosto sempre de ir conferir. Acho que por ter convivido muito tempo com pessoas de universos diversos, que me mostravam a todo momento que as coisas não eram exatamente como as pessoas, ou a maioria delas, propagavam. Essa convivência me permitiu desconstruir alguns preconceitos e valores. Contraditoriamente, as mesmas pessoas que me levaram a conhecer essa diversidade de universos e a desconstruir preconceitos também me obrigavam a conviver com concepções dogmáticas e sectárias de mundo. Em função desta salada de experiências, adquiri uma certa precaução em relação a comportamentos preconceituosos, dogmáticos e sectários (nos últimos tempos, também em relação aos muito racionais), estes que engessam as coisas e que não permitem deslocar o olhar para tentar enxergar o mundo a partir do lugar de quem está falando. Compreendo a atitude das pessoas que são assim, mas não é exatamente a tribo com a qual eu me identifico. Não gosto de engessar meu olhar. Não gosto de engessar posições e visões de mundo. Eu só tenho acesso consciente a menos de 10% do meu cérebro. Não faço ideia do que os outros 90% escondem ou são capazes de realizar. Tudo o que se estudou e se descobriu acerca da humanidade fica tão pequeno diante destes 90%. Eu mesma fico tão pequena diante de tudo o que desconheço. Como vou afirmar algo de forma inflexível e absoluta a respeito do mundo, se o que vejo ou vivi restringe-se ao que a minha experiência de vida permite, sendo portanto parcial e limitada?! Se o que vejo ao longo da história são crenças e descobertas serem descontruídas umas após outras e os homens se movendo e tentando compreender as coisas tendo como referência um limite tão pequeno quanto estes 10% conhecidos do cérebro?!
É por essas e outras que já há algum tempo eu não considero mais que sou: eu somente estou.
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quinta-feira, 5 de março de 2009

O espaço físico, o espaço virtual e a interferência deles nas relações sociais

No princípio eram as ágoras, as praças dos tempos da Grécia antiga, com suas áreas físicas amplas onde as pessoas falavam para uma quase multidão aglomerada em espaços comuns, em pleno contato físico.
Assim transcorreram séculos.
Depois surgiram as praças das cidades, não tão amplas, muitas vezes, mas ainda a céu aberto e estimulando o contato físico.
Trancorrido mais um período, não tão longo, apareceu o rádio, com a possibilidade de atingir pessoas a uma distância maior que a da voz, com um som mais potente saindo dos postes e das casas. Era o início do século XX. As pessoas ainda se concentravam nos espaços públicos ou em grandes salões para ouvir a transmissão sonora. Havia a proximidade física, o olho no olho.
Então veio a televisão, em meados do século XX, com sua tela que facilitava a compreensão da mensagem, sem exigir tanta atenção auditiva, mas que necessitava de espaços menores, em função do tamanho das imagens. O contato físico permaneceu, mas as pessoas começaram a sentar lado a lado, sem o olho no olho, para não atrapalhar a recepção da mensagem televisiva. A conversa passou a segundo plano.
Depois dela, veio o computador aliado à internet, com o monitor individual, mas com um poder de alcance que desestabilizava, de forma quase definitiva, as barreiras geográficas, enquanto atingia um número muito maior de criaturas humanas. As pessoas emudeceram por completo e, tanto elas quanto o espaço físico, passaram a ser individualizados - cada um em seu canto com sua tela particular.
E por último, pelo menos até este momento, surgiu o blog, que não somente passou a atingir um número imenso de pessoas de forma individual e virtual, mas a divulgar a vida íntima, o que vai lá dentro de cada indivíduo. Cada criatura expondo seus textos, fazendo sua escrita, democratizando, digamos assim, não somente a divulgação desta escrita, mas a exposição da intimidade particular de quem posta - de quem publica.
Na mesma proporção que o homem foi segregando-se dos seus semelhantes e individualizando o espaço físico, ele foi aumentando, teoricamente, o poder de alcancer de suas idéias. Teoricamente, porque o excesso de textos na internet está, cada vez mais, pulverizando o público leitor.
Quanto mais longe o ser humano tende a chegar para atingir outros seres, mais ele se afasta dos outros no plano das relações sociais físicas e afetivas, pois quanto maior a quantidade de pessoas possivelmente atingidas, maiores os graus de individualismo e da virtualidade da relação desenvolvida. E maior a necessidade de se comunicar e de expor as suas particularidades, de chamar a atenção, de aproximar-se dos outros humanos, ainda que de forma ilusória, no mar de monólogos que circulam hoje pelo mundo.
Claro que estou generalizando na minha análise, que a internet não virtualiza tanto o contato, aproximando, muitas vezes, pessoas que jamais se conheceriam ou se encontraríam de outra forma, mas é uma possibilidade que pode vir a acontecer mesmo.
Isto é muito maluco!
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P.S.: o texto acima foi pensado e construído a partir da leitura do livro Blog: comunicação e escrita íntima na internet, de Denise Schittine, edição 2004, e do meu próprio trabalho e pesquisa sobre a(s) cidade(s) em Chico Buarque de Holanda.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Dançar ou não dançar, eis a questão

Se William Shakespeare tivesse vivido no Rio Grande do Sul, é muito provável que o grande dilema de Hamlet fosse este: dançar ou não dançar.

Brincadeiras à parte, o assunto que quero começar a questionar hoje já vem incomodando esta criatura que vos escreve há alguns anos, como aquele fio de cabelo perdido que a gente não consegue identificar e tampouco esquecer, porque fica ali pinicando, coçando, inquietando.

Tenho pensado, cada vez com mais intensidade, que a população brasileira se divide em dois tipos de seres: os que dançam e os que não dançam.

Poderia arriscar dizer a humanidade ocidental divide-se, mas prefiro me ater ao que reconheço como minha cultura - a brasileira. Em especial comparação com a cultura gaúcha, que também reconheço como minha.

Como alguns aqui sabem, não tenho televisão em casa, mas eventualmente acontece de eu estar em casa de pessoas normais e poder acompanhar um programa. Hoje foi um desses casos.

O programa em questão era a reapresentação de um dos shows da Edição 2006 do Unimúsica, Projeto de Extensão da UFRGS, gravado pela TVE do Rio Grande do Sul, no Salão de Atos da UFRGS, em 09 de novembro de 2006.

Para quem não conhece ou não é de Porto Alegre, as edições do Unicultura costumam ser anuais, temáticas e mostrar, no formato de shows, trabalhos de artistas diversos, daqui do Sul e de outros lugares do Brasil.

Este show foi um pouco diferenciado dos demais do projeto em três aspectos: reuniu ao mesmo tempo e no mesmo palco um grande número de artistas, locais e de fora do Estado; intercalou, excepcionalmente, a execução das canções com sessões comentadas; e tentou evocar na platéia o espírito dos antigos bailes de carnaval.

O repertório era, portanto, basicamente formado por marchinhas clássicas dos carnavais dos anos 30, 40 e 50, e que perduraram, até pouco tempo atrás, nos bailes dos clubes das cidades.

Pois bem, eu assisti este show, como assisti diversos shows, alguns carnavais e micaretas no nordeste do Brasil, além de carnavais interioranos aqui no Estado mesmo. Acompanhei de perto tudo o que a mera transmissão televisiva não consegue abarcar e transmitir.

No caso deste show do Unicultura, os músicos encheram o espaço físico do palco com seus instrumentos, juntamente com os três cantores, Jussara Silveira, mineira de nascimento e baiana de coração, Monica Tomasi e Nelson Coelho de Castro, o branco mais preto de Porto Alegre - parodiando novamente a frase de Vinícius de Moraes.

No canto esquerdo do palco, completando o espaço, havia uma mesa com cadeiras e garrafas, numa alusão às mesas de bar, onde estavam sentados Arthur de Faria e Juarez Fonseca, os comentaristas, dois relevantes pensadores gaúchos da música brasileira, simpaticamente trajados com ternos brancos.

Ao longo do tempo, não sei se por saudades dos bailes, se por saudades do carnaval (era novembro) ou se por empolgação em função das próprias marchas, o público começou a participar intensamente dançando de pé nos corredores e espaços livres e chegando a subir meio eufórico ao palco, para dançar um tanto atrapalhado a última canção. A sensação que se tinha era de espíritos aprisionados em corpos que não pertenciam a eles e dos quais tentavam se libertar, desajeitadamente, sem muita ondulação nos movimentos, sem um encadeamento macio e harmonioso entre um gesto e outro. Claro que havia excessões - como em todo grande grupo.

O que pude constatar, mais uma vez, é que parece que os gaúchos, em grande parte e em maior quantidade do que em outros Brasis, crescem com um certo policiamento cerebral do corpo. E isto me parece ser antes um condicionamento oriundo de séculos de construção cultural do que uma herança genética em função da influência alemã, italiana ou indígena.

Não é à toa que o rock mais tradicional é cultuado ainda com muita força por estas plagas, ao contrário do que ocorre em outras regiões do Brasil. É um ritmo que dispensa completamente a ginga. Basta pular e balançar rigidamente o corpo em dois sentidos diametralmente opostos para dançá-lo dentro dos padrões sem destoar do grupo. E sendo assim, é conseqüentemente mais fácil de ser aprendido e executado em público, pelo mais tímido adolescente de qualquer parte do Estado, com ou sem o auxílio de bebida alcoólica.

No palco do Unicultura, o que se via eram cinco pessoas livres de instrumentos musicais oscilando constantemente entre manter a compostura ou sair movendo o corpo como sentisse vontade. Porque a marcha dá vontade de mexer o corpo. Ela é uma marcha - é feita para incitar o movimento. Mesmo quem diz não gostar definitivamente de carnaval, como o Arthur de Faria, ficava balançando as pernas, como se elas tivessem vida independente do resto do corpo. Isto acontecia também na platéia.

E acontece em diversos lugares e festas sulinas.

Até que chega um momento da noite em que as pessoas começam a beber excessivamente, o que não podia acontecer no caso do show. E quando Dionísio finalmente toma conta do cérebro, as porteiras culturais desta massa cinzenta se abrem e o corpo começa sua festa, atrapalhado, fora de forma, muitas vezes sem a intimidade necessária com o ritmo, mas se liberta.

A minha teoria é a seguinte: todo mundo que não tenha alguma limitação física grave demais, tem condições de dançar ou gosta de dançar. Só que há os que sabem, ou que se permitem, e os que não sabem, ou não se permitem. O que acontece é que o ato de dançar prende-se a conceitos socialmente muito limitado, diria até controlados. As pessoas não dançam como têm vontade, desencanadamente. Elas sabem que estão sendo observadas e julgadas pelos que não dançam e mesmo pelos que estão na pista, principalmente aqui no Sul.
Entretanto, dançar, na realidade, é basicamente mover o corpo ao ritmo de uma música de forma prazeirosa e/ou ritualística. A dança da qual estou falando (o ato de dançar) é aquela celebrativa, expressiva ou simplesmente catártica. Não é à dança como forma de Arte que me refiro, a estudada, a acadêmica ou profissional, mas simplesmente a dança como forma de catarse, de expressão - de comunicação, ou de comunhão.

Sendo assim, dentro da categoria dos que não sabem dançar eu colocaria:

- quem não se sente dentro das convenções do momento (os que não sabem dançar a dança da moda ou do grupo);

- quem não se sente confortável com o movimento do próprio corpo em público (foi inibido ou tolhido ao longo da vida pela própria família ou círculo social, que diziam que ele não sabia dançar, que ficavam rindo dele ou algo semelhante);

- quem sofreu, ou cresceu em contato com, alguma repressão religiosa, católica ou não;

- quem não se sente moral ou culturalmente liberado para mover seu corpo dentro deste contexto, o da dança (quem não consegue soltar o corpo para movimentá-lo de acordo com o que sente ouvindo a música ou conviveu somente com pessoas que não sabiam fazê-lo);

- quem aprendeu que atividades intelectuais (cerebrais) não são condizentes com atividades físicas (dança), etc.

Dentro da categoria dos que sabem:

- os que não sofreram nenhum tipo de influência negativa ou repressiva acerca do corpo ou conseguiram superá-las;

- os que tiveram contato com familiares ou pessoas que gostavam e incentivavam a dança ou que não reprimiam o movimento corporal;

- os que já têm desde pequenos natural pendência para a dança ou para o ritmo;

- os que vêm de culturas onde a ginga do corpo não é considerada tabu.

Há ainda a categoria dos que sabem dançar ou poderiam fazê-lo, mas preferem ficar na sua, tranqüilos, como parece ser o caso de alguns violeiros de raiz ou sertanejos.

O que para mim é mais difícil aceitar, o que eu não consigo assimilar, é que haja quem diz que não gosta, mas quando bebe, faz e gosta.

No nordeste do Brasil existem alguns facilitadores da liberação do movimento do corpo, entre os quais estão os seguintes: o carnaval é de rua; é com multidões; é sem muita ordenação geográfica; ninguém fica cuidando ninguém, nem censurando com o olhar; o corpo exposto faz parte do cotidiano das pessoas, não choca como no Sul; e os trios elétricos têm um poder sonoro de incrível sedução - a adrenalina sobe à cabeça com o ritmo da músicas e com a percussão.

Para quem nunca foi lá ou só viu pela televisão, eu digo que não dá para ficar parado muito tempo ao lado de um trio elétrico oficial. Logo você tem que sair dali, que é onde ficam dispostas as caixas de som. Os trios oficiais são os maiores que há. Cada um deles é enorme e com uma mega potência. A batida musical é tão cardíaca, acelera tanto a batida do coração, a pressão que sai das caixas de som é tão grande, tão física, que parece que vai arrebentar o peito, vai sufocar a gente.

A partir das minhas observações enquanto gaúcha, nascida no interior, depois de ter convivido com culturas brasileiras diferentes da sulina, depois de ter superado as minhas próprias limitações simplesmente pela imersão intensa e sem preconceito durante alguns anos em outras culturas rítmicas, eu constatei que a inflexibilidade e a resistência corporal à ginga, tão conhecida do povo gaúcho, talvez seja muito mais cerebral e ilusória mesmo do que física ou real.
Em todo caso, fica a dica: tente, tente, tente. Uma hora o corpo começa a ceder.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Balanço breve

Nesse semestre passado eu aprendi mais a meu respeito do que nos últimos três ou quatro anos. E aprendi, principalmente, a me desvencilhar dos meus antolhos imaginários e a parar de alimentar situações hipotéticas em confortável substituição às rédeas dos meus próprios desejos e necessidades. Foi bom, foi muito bom! Difícil, insuportável em alguns momentos! Mas valeu a pena, no final das contas!
Há quem pense que estou me expondo demais ao escrever isto. Mas eu sei que, dentro da minha forma de ser, cada palavra dita, cada enfrentamento é uma palavra a mais que se reformula e adquire novo sentido. Ao assumir seus significados atuais, eu permito que ela morra, para renascer em seguida. E com o seu renascimento eu me reconstruo e me reorganizo.
A todos que, de uma forma ou de outra, me ajudaram no percurso, fica aqui o meu profundo agradecimento!
O agradecimento, mais que o próprio significado da palavra ou do que sua função, é para mim um mantra. Quando pronuncio estas oito - ou treze - letrinhas para alguém, elas levam agregadas uma bagagem de afago e de boas energias.
Obrigada, queridos!
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Reflexões sobre a cidade

OBS.: o texto que segue é cheio de caraminholas pessoais que estão me incomodando, então não percam seu tempo.


Ainda sobre o conto que escrevi abaixo, alguns meses atrás minha irmã começou a me dizer coisas do tipo: Ah, o centro (de São Leopoldo) tá muito perigoso! Chega 6 horas (da tarde) fica tudo deserto e tal...

Eu, como só vinha zanzando por lá em horário comercial, fiquei um pouco intrigada com aquilo, achando meio exagerado o comentário dela e fui conferir o que ela vinha dizendo.

E não é que isto está realmente acontecendo?! Agora não tanto porque é verão e época de comércio intenso, mas o ambiente se modificou mesmo, o que já não era exatamente novo para mim (que vejo lojas tradicionais fechando desde os anos oitenta), mas criando um clima de cidade deserta que antes, mesmo de madrugada, não havia.

Minha irmã é bem mais nova que eu, não tendo conhecido tanto da história da cidade quanto eu conheci, e tentando entender a extensão do comentário dela, me dei conta do motivo, que talvez seja óbvio para quem está lendo isto, mas que, para mim, não era até pouco tempo atrás: quase todas as ruas do entorno da Rua Grande de São Leopoldo foram transformadas em ruas de comércio, com as fachadas das casas reformadas e ampliadas até a calçada, para serem alugadas para lojinhas e pequenos estabelecimentos. E aí, claro, né?! chega o fim do horário de expediente, todo mundo baixa as cortinas de ferro e fica aquele silêncio de concreto e aço onde antes havia jardins floridos e varandas, com pessoas circulando e tomando chimarrão, com suas janelas abertas e iluminadas.

Hoje em dia, só pode dar medo mesmo!

Não sei muito bem o que pensar disso, porque a gente fica dividido entre o que a cidade era e o que ela está se transformando, e que é um processo de mudanças inevitável, se pensarmos no processo análogo de desenvolvimento dos demais centros urbanos (e aí eu entendo um pouco o lado dos descendentes de alemães quando ficam criticando a descaracterização da cidade e tal, apesar de São Leopoldo já ter, desde a década de 1960, um contigente crescente de não-alemães que foram migrando para os centros urbanos, principalmente após o crescimento das zonas industriais, que durante quatro décadas caracterizaram fortemente a economia local).

Um pequeno parênteses a respeito: tempos atrás eu fiz um levantamento, por curiosidade, numa turma leopoldense em que eu dava aula e do total, apenas dois ou três tinham sobrenome alemão - os demais alunos da turma tinham origens bem diversas e realmente, suas famílias tinham vindo para a região no período que se seguiu à década de 1960, percurso que também se deu com a minha família, e por motivos semelhantes.

Em São Leopoldo, acho que deveria haver um limite imposto por lei para a descaracterização da arquitetura do centro, um que permitisse o desenvolvimento do comércio sem alterar tanto (leia-se padronizar) os prédios locais. Talvez até já haja algo no Plano Diretor da cidade, mas não parece estar vigorando.

Por outro lado, eu fico pensando na história do desenvolvimento de Porto Alegre, minha cidade do coração e por opção. Se pegarmos a história dela, o processo não foi muito diferente. O que aconteceu foi que ela expandiu tanto que estas áreas mais antigas não foram completamente descaracterizadas, surgindo assim outros núcleos de preservação, como algumas ruas do entorno da Redenção, ou mesmo em alguns pontos do centro, como para os lados da Rua Duque de Caxias e em áreas da Cidade Baixa (que também não deixa de ter sido uma modificação induzida, ainda que mais aconchegante). É que São Leopoldo é tão pequena ainda (aglutinada, sem espaço físico para se expandir em função de estar cercada por todos os lados por outros municípios urbanizados) que parece que estas mudanças vão acabar se alastrando e engolindo as belezas da cidade. Fico pensando na Rua Voluntários da Pátria, de Porto Alegre, ou no centro insosso de Canoas quando passo pelas ruas leopoldenses, como se eles fossem um prenúncio do que ela vai se tornar.

São Leopoldo sofreu bastante com o desemprego gerado no período de crise industrial, o que ocasionou muito desemprego na população local. Em função disso e do próprio perfil industrial que perdeu força, a cidade começou a ganhar inúmeros estabelecimentos comerciais, desde as Marisas da vida até os zilhões de 1,99 e lojinhas diversas, principalmente nesta última década, e perdeu, como conseqüência, os estabelecimentos familiares originais e históricos (muitos dos quais eram ainda comandados por famílias locais, com nomes alemães) que existiam até então na cidade, como ocorreu em boa parte dos grandes centros urbanos. Além do que, muitos descendentes de imigrantes alemães deixaram a cidade para morar em outros lugares e os pais e avós, com o tempo foram morrendo ou se rendendo à necessidade de modificação das suas casas pela busca de segurança ou por acabar vendendo as mesmas para a construção de prédios comerciais. Ainda há pequenos paraísos escondidos atrás dos muros opacos ou das fachadas das casas, mas só para quem conhece seus segredos.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Das convenções sociais

Ontem surgiu mais uma vez a pergunta: quantos anos você tem?
Quase que eu perguntei de volta: qual delas você quer saber: a mental, a emocional, a biológica, a espiritual ou a dos homens?
Lembrei daquela tirinha da Mafalda, do Quino, na qual o vendedor bate à porta do apartamento, ela atende e ele pergunta: Oi, menina! Tua mãe está? E ela responde: Qual delas você quer? a que me enche de carinhos, a que grita comigo, a que me empurra sopa goela abaixo, a que cuida de mim, a que... O vendedor fica sem saber o que responder, com aquela cara de tacho de quem não estava preparado para a questão.
As respostas não são bem essas que coloquei, porque não me lembro direito da tirinha, mas a ídéia está ali.
Sempre fico na dúvida se respondo ou não nessas horas. E se acabo respondendo é por saber que as pessoas ainda necessitam da ilusão das referências convencionadas.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Acorde, Brasileiro!

Semana que vem tem a 2ª Edição do Acorde Brasileiro. Parece que foi ontem que acabou o primeiro...
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domingo, 9 de novembro de 2008

Falhas no sistema

Odeio quando o blog apaga o post antes de eu terminar de escrever ou postar. Ele não tem nada que ficar salvando por conta! Eu não mandei fazer isso! Que saco!

domingo, 26 de outubro de 2008

Para refletir

Em "O Homem Cordial", de Raízes do Brasil:
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“ (...) Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público. Assim, eles se caracterizam justamente pelo que separa o funcionário “patrimonial” do puro burocrata conforme definição de Max Weber. Para o funcionário “patrimonial”, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se aos direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos. A escolha dos homens que irão exercer funções públicas faz-se de acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com as suas capacidades próprias. Falta a tudo a ordenação impessoal que caracteriza a vida do Estado burocrático. O funcionalismo patrimonial pode, com a progressiva divisão das funções e com a racionalização, adquirir traços burocráticos. Mas em sua essência ele é tanto mais diferente do burocrático, quanto mais caracterizados estejam os dois tipos.
No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. Dentre esses círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu com mais força e desenvoltura em nossa sociedade. E um dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar – a esfera, por excelências dos chamados “contatos primários”, dos laços de sangue e de coração – está em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. Isso ocorre mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, pretendem assentar a sociedade em normas antiparticulares. (...)” (HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 145-146)
PS: Isto não é um recado para ninguém em especial.
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sábado, 25 de outubro de 2008

O jeito Coca-Cola de ser

Eu não sou adepta da Coca-Cola, ou viciada, que é o termo que ficaria mais adequado à relação desta bebida com seus consumidores. Nunca fui, hábito de família. Refrigerantes artificias só eram permitidos nos churrascos de domingos e festas. Logo, nunca criei dependência a eles, nem física, nem afetiva. Também não sou vegetariana nem categorias afins. Adoro um bom xis com batata frita, mas procuro deixar só para o "de vez em quando".
Tempos atrás aconteceu de eu andar enjoando de comidas embutidas, como chester, presunto e assemelhados, passando, assim, a optar por frutas e outros alimentos menos industrializados.
Aí eu me dei conta de uma coisa que eu acho que os amantes de refrigerantes não conseguem perceber: os refrigerantes alteraram o padrão dos temperos, do sal e do açúcar. Todas as comidas "Jesus Me Chama" possuem um teor de sal bem acima do necessário ao paladar de quem come comidas in natura. E eu sou do tempo em que se cozinhava polenta em tachos. "Jesus Me Chama" é uma expressão que eu adotei depois de ouvi-la em uma entrevista do João Gordo, vocalista do Ratos de Porão. Ele se referia àquelas comidas do tipo "fanta uva com torresmo de buteco". Perfeita para definir o padrão Coca-Cola de ser. Acontece que eu chego nos lugares e peço a comida (pastel, xis, salgados ou outros) e não peço o refrigerante. Aí se percebe a diferença. Como eles são muito doces, a comida precisa compensar no sal. É absurda a quantidade desnecessária que é colocada. Assim como, se limparmos o paladar do excesso, comendo frutas e comida caseira e deixarmos o refrigerante perder o gás (este um belo maquiador para o alto teor de açúcar), a bebida se torna intragável. Fica um xarope melequento. E o mais divertido foi que, ao me desligar dos embutidos, outras coisas foram junto na seqüência, como os alimentos gordurosos para pão (requeijão, patê, Käzschmier, margarina) porque a gente perde a vontade de comer pão de padaria. E olha que eu sou louca por um pão francês recém saído do forno.