E não, eu não estou tendo uma crise de Pollyanna!
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Prestando atenção nas sonoridades da vida.
"Fui fazer faxina em minha caixa de endereços. Limpar os nomes duplicados, uniformizar os conhecidos, distribuí-los pelas suas cidades. Dedica-se a manhã e a tarde para uma atividade que julgava cumprir em uma hora. Trabalho chato, porém indispensável. Assim como meu pai nos botava a retirar o osso do peixe para merecê-lo.
Encontrei o nome de um amigo falecido. Ao deletá-lo mecanicamente, apareceu a mensagem perguntando se tinha certeza daquilo. Vacilei. Era como se o próprio finado me questionasse se o apagaria da minha vida. Pressionado, ninguém tem certeza. Eu, muito menos.
Seria enterrá-lo de novo. Desprezar a sua lembrança.
Espiei ao lado para ver se um vulto se mexia na cortina. Respirei fundo e tratei toda aquela suposição como bobagem, estresse. Ele não conseguiria responder, o que valeria manter seu nome para ocupar espaço? (E, se por sinal replicasse, ficaria dominado pelo pavor, ainda que fosse uma resposta automática).
Mas o mal-estar não desapareceu com o meu realismo. Agravou-se. Raspava o teclado como um soletrador de piano. Não pulava de tecla. Sentei em mim, denso, com as costas do mar em meus ouvidos. Bateu uma moleza de sesta, um aborrecimento antigo." (para ler o final da história, acesse o site)
Meu pai faleceu há alguns meses atrás. E eu não consigo apagar o número dele do meu celular. Nem o número, nem as mensagens.
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