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domingo, 26 de abril de 2009

Então, a todos os brasileiros guerreiros

Que canção forte esta:

Líder dos Templários
(Jorge Benjor, Jorge Vercilo, Jorge Mautner e Jorge Aragão)

Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo Brasileiro, Brasileiro guerreiro
São Jorge cavaleiro da flor,
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
Oxóssi da mata, Ogum do Ferro
Salamâleico, âleicon, salamalan
.
Estórias de um Santo lutador
Líder soberano dos templários
No povo a sua força se perpetuou
E hoje vive em nosso imaginário
E hoje vive em nosso imaginário
.
Mas todo imaginário tem valor
E pode transformar esse cenário
A mente criadora é um dom maior
Naqueles que são revolucionários
Naqueles que são revolucionários
.
Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo Brasileiro, Brasileiro guerreiro
Eu sou cavaleiro da flor,
São Jorge protetor, protetor, protetor
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
O terreno ambíguo
Porque ele é um herói
Ele tem pulsações humanas
.
E é por isso que ele é tão querido
Em todos os lugares
Pelas crianças, pela população
.
Estórias de um Santo lutador
Líder soberano dos templários
No povo a sua força se perpetuou
E hoje vive em nosso imaginário
E hoje vive em nosso imaginário
.
Mas todo imaginário tem valor
E pode transformar esse cenário
A mente criadora é um dom maior
Naqueles que são revolucionários
Naqueles que são revolucionários
.
Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro
Eu sou cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro
Eu sou cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
De Camões à Fernando Pessoa
Nós somos resultado
Dessa peregrinação longínqua
De combates e de glórias
De afirmação do bem contra o mal,
E mesmo na era cibernética,
No mundo digital, no holograma
Ali está São Jorge
Triunfante lá na frente de todos nós,
É a pipoca da pororoca da imaginação
.
Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro,
São Jorge cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
Tem fé que Jorge é de ajudar
A todo brasileiro, brasileiro guerreiro
São Jorge cavaleiro da flor
São Jorge protetor, protetor, protetor
.
São Jorge protetor, protetor, protetor
São Jorge Guerreiro
Santo Salvador
.
Saravá, colofé, motumbá
.
Vem nos ajudar
Vem curar a dor
Vem nos ajudar
.
Salamâleico, âleicon, salamalan
Shalon shalon
.
Amém
.
Santo Salvador
.
Como sempre, para ouvir a todo volume.

Segue o vídeo, do Youtube:
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Êta suingue danado de bom, Siô!
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os cinco sentidos

Um cara me perguntou esta semana: O que tu vê em Porto Alegre? (em outras palavras, por que tu faz questão de ficar morando aí?)
Eu fiquei pensando: O que tu (ele) não vê em Porto Alegre?
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Ontem eu tive a oportunidade de realizar um dos meus pequenos prazeres que é o de furungar no Mercado Público. Não era um bom dia para isto, pois com a Feira do Peixe a coisa estava um pouco confusa e tumultuada, mas enfim...tudo vale a pena se alma blablablá. (Ah, é! Agora não é mais assim que se escreve: blablablá. Saco!)
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Adoro aquele lugar! Aliás, adoro mercados públicos! São o paraíso dos cozinheiros. E também dos metidos a, como eu. O difícil é resistir às tentações e focar apenas no necessário, sem cometer desperdícios. Especialmente no que diz respeito às bancas de temperos e laticínios. E mais ainda em períodos de lua cheia, em que ficamos bastante hedonistas e com a percepção aguçada.
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Lembrei agora do Mercado Público de Aracaju, com seus "trezentos" sacos de farinha de mandioca de várias tonalidade e granulações. Tinha uma delas que parecia um leite ninho de tão cremosa e amarela. E o sabor...AFF! Chega a dar água na boca, só de lembrar. Aí eu entendi o porquê dos nordestinos comerem tanto a famosa farinha com rapadura. Quando voltei para cá, a nossa farinha de mandioca parecia uma crosta grossa, áspera e insossa, que me perdoem os gaudérios. Nem precisa dizer que por um bom tempo perdi completamente a vontade de comer estas que andam por aqui.
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Quem sabe no dia em que São Leopoldo tiver um mercado público eu não pense em voltar pra lá.
Por enquanto, Porto Alegre continua deliciosa!
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domingo, 22 de março de 2009

Bairrismo

Eu amo Porto Alegre!
Andava meio esquecida do teor deste amor e de tudo o que me fazia gostar tanto daqui, mas nos últimos tempos eu tive o prazer de (re)lembrar alguns porquês. Esta cidade é muito linda mesmo!
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domingo, 15 de março de 2009

A Novidade

A novidade é a seguinte: de hoje em diante vou começar a postar aqui, eventualmente, textos de outras pessoas.
O primeiro deles é de Marcos Sosa, uma resenha do CD Percussìvé, do compositor e violonista gaúcho Felipe Azevedo.
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Felipe Azevedo: mãos no ritmo e cabeça na canção

por Marcos Sosa

Franqueza musical, eis um valor decisivo à composição. Presente nas melhores pautas, das clássicas às contemporâneas, exige do compositor um plano de referências amplo e consistente à aplicação da técnica, equilibrado à inventividade que a cada artista é dada cumprir.
À audição de Percussìvé, mais recente álbum de Felipe Azevedo, talvez sejam estas as linhas gerais trazidas a qualquer comentário de causas e efeitos de sua canção.



Violonista que pensa o instrumento com franqueza de pesquisador e alma de artista, faz das seis cordas uma pátria cheia de segredos. Dessa junção, duas inferências correm lado a lado: uma que se liga ao conhecimento detalhado das raízes do ritmo brasileiro, em que o violão interpreta os melhores compassos formadores de tradições, e outra que redunda na invenção melódica com os dois pés no contraponto. O resultado, por sua vez, tem mais de desacomodação e menos de repouso.
Trata-se, porém, de uma desacomodação criadora, lúcida, num alto sentido e valor, que passa por uma experimentação por vezes de resultados inusitados, noutros momentos curiosa, compondo um painel delicado e descolado, detalhado e auto-sustentado, em que a exploração desta pátria cheia de segredos traz uma vivacidade de grande preparo à palavra.
E a palavra de Percussìvé é plena, miscigenada, brasileiríssima. Maracatu torto, Balaio de cordas e Balanço tupiniquim (as duas últimas com a participação de Marcos Suzano), por exemplo, parecem cruzar as pontas norte e sul, acenando para um conhecimento de brasilidade que por vezes se esquece de acontecer, no isolacionismo de cada uma de nossas ilhas culturais. Tema para um compasso de espera, na voz de Mônica Salmaso, trata com carinho da paixão como promessa, virtude e loucura. Já Norato Ciber Cobra e Canibalismoderno referem com naturalidade questões contemporâneas como o avanço da tecnologia e da genética, com certo humor doce e antropofagia inusitada. São 14 faixas mais duas vinhetas, para revelar um país continental onde as diferenças não passam de uma brincadeira inocente.
É de se notar, também, que Percussìvé vem sublinhado com um segundo elemento ao título: "a prece do louva-a-deus". À abertura do encarte, fazendo as vezes de dicionarista, Felipe define o inseto como melhor lhe cabe dizer, trazendo Guimarães Rosa, Tarsila do Amaral, e mais um punhado de reflexões pessoais, dentre as quais uma parece definidora: "Imagino suas patas dianteiras tamborilando as cordas de um violão". O louva-a-deus, "imóvel a espiar os arredores da vida no seu habitat", traduz, enfim, a verve de um compositor dedicado, gaúcho mas não só, com as mãos no ritmo brasileiro e a cabeça na canção.

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Marcos Sosa é professor. O texto Felipe Azevedo: mãos no ritmo e cabeça na canção foi publicado em 20 de setembro de 2008, no site Portfolio.
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sábado, 14 de março de 2009

Deus te vê

Não, esta ainda não é a novidade que está fermentando aqui nos bastidores do blog.

Estava lendo a coluna do Fischer, no Pesqueiro de hoje sobre a influência do pensamento católico na literatura e na formação do povo brasileiro e gaúcho.

Também tive minha cota de respingo católico. Fui criada por pais que não eram examente exemplos de católico praticante. Minha mãe sofreu influência, por ter estudado como interna em colégio de freiras e através de minha avó que, apesar de italiana, era discreta - daquelas que têm fé mas não ficam apregoando aos quatro cantos do mundo.

Meu pai sofreu influência da parte carola da família dele (polonesa), mas se opunha radicalmente, chegando a, em determinada época da vida, se recusar a ir em solenidades como batizado, comunhão.

Eu estudei em colégio luterano (dos luteranos da Alemanha, não dos Estados Unidos), mas não era ligada nestas questões, me interessando muito mais pela parte cultural e pela esportiva mesmo. Por essas e outras, me criei achando que não havia sofrido influência religiosa.

Doce ilusão em um país como o nosso.

O catolicismo perpassa a criação das pessoas como o perfume que ultrapassa as paredes da casa ecoando pelos corredores e arredores. Não tem como passar ilesa. Tem sempre alguém ou algum programa ou algum parente ou amigo, vizinho, enfim, alguém que vai te contaminar e quando tu vê, o vírus se manifesta.

Quanto ao episódio, quem sabe outra hora em conto. Já faz alguns anos que aconteceu, não foi nada muito absurdo ou que valha a pena comentar, mas foi o suficiente para eu perceber que não tinha escapado da influência negativa da Igreja. E constatar que eu não escapara me deixou bastante perplexa e frustrada. E isso, sim, é relevante comentar. Eu que me achava tão independente em relação às questões religiosas.

Outro dia minha mãe contou que quando elas iam no banheiro lá no internato de freiras, em Passo Fundo, havia um cartaz escrito:

DEUS TE VÊ.

Que absurdo! Depois não querem que a mulherada sofra de prisão de ventre. Gerações inteiras usando o vaso sanitário, tomando banho, escovando os dentes com "Deus" perseguindo elas até nas horas mais íntimas. E claro que se a mãe tem prisão de ventre, a filha, que acompanha diariamente o sofrimento da mãe, vai ficar com medo de ter prisão de ventre e vai desenvolvê-la, por consequência. E dale produto farmacêutico para desentupir Deus da cabeça das pessoas. Podiam inventar uma pílula contra dogmas.

Minha mãe, no que diz respeito a alguns pontos e por contar com o apoio dos pais dela, que tinham espiritualidade, mas eram bastante críticos e independentes de cabeça, conseguiu se livrar pelo menos desta seqüela da influência "divina". Meu intestino agradece!

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P.S.: eu sei que é dá-lhe, mas gosto mais de dale mesmo.

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quinta-feira, 5 de março de 2009

O espaço físico, o espaço virtual e a interferência deles nas relações sociais

No princípio eram as ágoras, as praças dos tempos da Grécia antiga, com suas áreas físicas amplas onde as pessoas falavam para uma quase multidão aglomerada em espaços comuns, em pleno contato físico.
Assim transcorreram séculos.
Depois surgiram as praças das cidades, não tão amplas, muitas vezes, mas ainda a céu aberto e estimulando o contato físico.
Trancorrido mais um período, não tão longo, apareceu o rádio, com a possibilidade de atingir pessoas a uma distância maior que a da voz, com um som mais potente saindo dos postes e das casas. Era o início do século XX. As pessoas ainda se concentravam nos espaços públicos ou em grandes salões para ouvir a transmissão sonora. Havia a proximidade física, o olho no olho.
Então veio a televisão, em meados do século XX, com sua tela que facilitava a compreensão da mensagem, sem exigir tanta atenção auditiva, mas que necessitava de espaços menores, em função do tamanho das imagens. O contato físico permaneceu, mas as pessoas começaram a sentar lado a lado, sem o olho no olho, para não atrapalhar a recepção da mensagem televisiva. A conversa passou a segundo plano.
Depois dela, veio o computador aliado à internet, com o monitor individual, mas com um poder de alcance que desestabilizava, de forma quase definitiva, as barreiras geográficas, enquanto atingia um número muito maior de criaturas humanas. As pessoas emudeceram por completo e, tanto elas quanto o espaço físico, passaram a ser individualizados - cada um em seu canto com sua tela particular.
E por último, pelo menos até este momento, surgiu o blog, que não somente passou a atingir um número imenso de pessoas de forma individual e virtual, mas a divulgar a vida íntima, o que vai lá dentro de cada indivíduo. Cada criatura expondo seus textos, fazendo sua escrita, democratizando, digamos assim, não somente a divulgação desta escrita, mas a exposição da intimidade particular de quem posta - de quem publica.
Na mesma proporção que o homem foi segregando-se dos seus semelhantes e individualizando o espaço físico, ele foi aumentando, teoricamente, o poder de alcancer de suas idéias. Teoricamente, porque o excesso de textos na internet está, cada vez mais, pulverizando o público leitor.
Quanto mais longe o ser humano tende a chegar para atingir outros seres, mais ele se afasta dos outros no plano das relações sociais físicas e afetivas, pois quanto maior a quantidade de pessoas possivelmente atingidas, maiores os graus de individualismo e da virtualidade da relação desenvolvida. E maior a necessidade de se comunicar e de expor as suas particularidades, de chamar a atenção, de aproximar-se dos outros humanos, ainda que de forma ilusória, no mar de monólogos que circulam hoje pelo mundo.
Claro que estou generalizando na minha análise, que a internet não virtualiza tanto o contato, aproximando, muitas vezes, pessoas que jamais se conheceriam ou se encontraríam de outra forma, mas é uma possibilidade que pode vir a acontecer mesmo.
Isto é muito maluco!
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P.S.: o texto acima foi pensado e construído a partir da leitura do livro Blog: comunicação e escrita íntima na internet, de Denise Schittine, edição 2004, e do meu próprio trabalho e pesquisa sobre a(s) cidade(s) em Chico Buarque de Holanda.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Dançar ou não dançar, eis a questão

Se William Shakespeare tivesse vivido no Rio Grande do Sul, é muito provável que o grande dilema de Hamlet fosse este: dançar ou não dançar.

Brincadeiras à parte, o assunto que quero começar a questionar hoje já vem incomodando esta criatura que vos escreve há alguns anos, como aquele fio de cabelo perdido que a gente não consegue identificar e tampouco esquecer, porque fica ali pinicando, coçando, inquietando.

Tenho pensado, cada vez com mais intensidade, que a população brasileira se divide em dois tipos de seres: os que dançam e os que não dançam.

Poderia arriscar dizer a humanidade ocidental divide-se, mas prefiro me ater ao que reconheço como minha cultura - a brasileira. Em especial comparação com a cultura gaúcha, que também reconheço como minha.

Como alguns aqui sabem, não tenho televisão em casa, mas eventualmente acontece de eu estar em casa de pessoas normais e poder acompanhar um programa. Hoje foi um desses casos.

O programa em questão era a reapresentação de um dos shows da Edição 2006 do Unimúsica, Projeto de Extensão da UFRGS, gravado pela TVE do Rio Grande do Sul, no Salão de Atos da UFRGS, em 09 de novembro de 2006.

Para quem não conhece ou não é de Porto Alegre, as edições do Unicultura costumam ser anuais, temáticas e mostrar, no formato de shows, trabalhos de artistas diversos, daqui do Sul e de outros lugares do Brasil.

Este show foi um pouco diferenciado dos demais do projeto em três aspectos: reuniu ao mesmo tempo e no mesmo palco um grande número de artistas, locais e de fora do Estado; intercalou, excepcionalmente, a execução das canções com sessões comentadas; e tentou evocar na platéia o espírito dos antigos bailes de carnaval.

O repertório era, portanto, basicamente formado por marchinhas clássicas dos carnavais dos anos 30, 40 e 50, e que perduraram, até pouco tempo atrás, nos bailes dos clubes das cidades.

Pois bem, eu assisti este show, como assisti diversos shows, alguns carnavais e micaretas no nordeste do Brasil, além de carnavais interioranos aqui no Estado mesmo. Acompanhei de perto tudo o que a mera transmissão televisiva não consegue abarcar e transmitir.

No caso deste show do Unicultura, os músicos encheram o espaço físico do palco com seus instrumentos, juntamente com os três cantores, Jussara Silveira, mineira de nascimento e baiana de coração, Monica Tomasi e Nelson Coelho de Castro, o branco mais preto de Porto Alegre - parodiando novamente a frase de Vinícius de Moraes.

No canto esquerdo do palco, completando o espaço, havia uma mesa com cadeiras e garrafas, numa alusão às mesas de bar, onde estavam sentados Arthur de Faria e Juarez Fonseca, os comentaristas, dois relevantes pensadores gaúchos da música brasileira, simpaticamente trajados com ternos brancos.

Ao longo do tempo, não sei se por saudades dos bailes, se por saudades do carnaval (era novembro) ou se por empolgação em função das próprias marchas, o público começou a participar intensamente dançando de pé nos corredores e espaços livres e chegando a subir meio eufórico ao palco, para dançar um tanto atrapalhado a última canção. A sensação que se tinha era de espíritos aprisionados em corpos que não pertenciam a eles e dos quais tentavam se libertar, desajeitadamente, sem muita ondulação nos movimentos, sem um encadeamento macio e harmonioso entre um gesto e outro. Claro que havia excessões - como em todo grande grupo.

O que pude constatar, mais uma vez, é que parece que os gaúchos, em grande parte e em maior quantidade do que em outros Brasis, crescem com um certo policiamento cerebral do corpo. E isto me parece ser antes um condicionamento oriundo de séculos de construção cultural do que uma herança genética em função da influência alemã, italiana ou indígena.

Não é à toa que o rock mais tradicional é cultuado ainda com muita força por estas plagas, ao contrário do que ocorre em outras regiões do Brasil. É um ritmo que dispensa completamente a ginga. Basta pular e balançar rigidamente o corpo em dois sentidos diametralmente opostos para dançá-lo dentro dos padrões sem destoar do grupo. E sendo assim, é conseqüentemente mais fácil de ser aprendido e executado em público, pelo mais tímido adolescente de qualquer parte do Estado, com ou sem o auxílio de bebida alcoólica.

No palco do Unicultura, o que se via eram cinco pessoas livres de instrumentos musicais oscilando constantemente entre manter a compostura ou sair movendo o corpo como sentisse vontade. Porque a marcha dá vontade de mexer o corpo. Ela é uma marcha - é feita para incitar o movimento. Mesmo quem diz não gostar definitivamente de carnaval, como o Arthur de Faria, ficava balançando as pernas, como se elas tivessem vida independente do resto do corpo. Isto acontecia também na platéia.

E acontece em diversos lugares e festas sulinas.

Até que chega um momento da noite em que as pessoas começam a beber excessivamente, o que não podia acontecer no caso do show. E quando Dionísio finalmente toma conta do cérebro, as porteiras culturais desta massa cinzenta se abrem e o corpo começa sua festa, atrapalhado, fora de forma, muitas vezes sem a intimidade necessária com o ritmo, mas se liberta.

A minha teoria é a seguinte: todo mundo que não tenha alguma limitação física grave demais, tem condições de dançar ou gosta de dançar. Só que há os que sabem, ou que se permitem, e os que não sabem, ou não se permitem. O que acontece é que o ato de dançar prende-se a conceitos socialmente muito limitado, diria até controlados. As pessoas não dançam como têm vontade, desencanadamente. Elas sabem que estão sendo observadas e julgadas pelos que não dançam e mesmo pelos que estão na pista, principalmente aqui no Sul.
Entretanto, dançar, na realidade, é basicamente mover o corpo ao ritmo de uma música de forma prazeirosa e/ou ritualística. A dança da qual estou falando (o ato de dançar) é aquela celebrativa, expressiva ou simplesmente catártica. Não é à dança como forma de Arte que me refiro, a estudada, a acadêmica ou profissional, mas simplesmente a dança como forma de catarse, de expressão - de comunicação, ou de comunhão.

Sendo assim, dentro da categoria dos que não sabem dançar eu colocaria:

- quem não se sente dentro das convenções do momento (os que não sabem dançar a dança da moda ou do grupo);

- quem não se sente confortável com o movimento do próprio corpo em público (foi inibido ou tolhido ao longo da vida pela própria família ou círculo social, que diziam que ele não sabia dançar, que ficavam rindo dele ou algo semelhante);

- quem sofreu, ou cresceu em contato com, alguma repressão religiosa, católica ou não;

- quem não se sente moral ou culturalmente liberado para mover seu corpo dentro deste contexto, o da dança (quem não consegue soltar o corpo para movimentá-lo de acordo com o que sente ouvindo a música ou conviveu somente com pessoas que não sabiam fazê-lo);

- quem aprendeu que atividades intelectuais (cerebrais) não são condizentes com atividades físicas (dança), etc.

Dentro da categoria dos que sabem:

- os que não sofreram nenhum tipo de influência negativa ou repressiva acerca do corpo ou conseguiram superá-las;

- os que tiveram contato com familiares ou pessoas que gostavam e incentivavam a dança ou que não reprimiam o movimento corporal;

- os que já têm desde pequenos natural pendência para a dança ou para o ritmo;

- os que vêm de culturas onde a ginga do corpo não é considerada tabu.

Há ainda a categoria dos que sabem dançar ou poderiam fazê-lo, mas preferem ficar na sua, tranqüilos, como parece ser o caso de alguns violeiros de raiz ou sertanejos.

O que para mim é mais difícil aceitar, o que eu não consigo assimilar, é que haja quem diz que não gosta, mas quando bebe, faz e gosta.

No nordeste do Brasil existem alguns facilitadores da liberação do movimento do corpo, entre os quais estão os seguintes: o carnaval é de rua; é com multidões; é sem muita ordenação geográfica; ninguém fica cuidando ninguém, nem censurando com o olhar; o corpo exposto faz parte do cotidiano das pessoas, não choca como no Sul; e os trios elétricos têm um poder sonoro de incrível sedução - a adrenalina sobe à cabeça com o ritmo da músicas e com a percussão.

Para quem nunca foi lá ou só viu pela televisão, eu digo que não dá para ficar parado muito tempo ao lado de um trio elétrico oficial. Logo você tem que sair dali, que é onde ficam dispostas as caixas de som. Os trios oficiais são os maiores que há. Cada um deles é enorme e com uma mega potência. A batida musical é tão cardíaca, acelera tanto a batida do coração, a pressão que sai das caixas de som é tão grande, tão física, que parece que vai arrebentar o peito, vai sufocar a gente.

A partir das minhas observações enquanto gaúcha, nascida no interior, depois de ter convivido com culturas brasileiras diferentes da sulina, depois de ter superado as minhas próprias limitações simplesmente pela imersão intensa e sem preconceito durante alguns anos em outras culturas rítmicas, eu constatei que a inflexibilidade e a resistência corporal à ginga, tão conhecida do povo gaúcho, talvez seja muito mais cerebral e ilusória mesmo do que física ou real.
Em todo caso, fica a dica: tente, tente, tente. Uma hora o corpo começa a ceder.
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A delicada poesia de Manoel de Barros

Mundo Pequeno
VII
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.


Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.
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Uma Didática da Invenção

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças.
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VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz:

Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.
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XI
Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin)
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P.S.: Os poemas acima podem ser encontrados no Livro das Ignorãças, do poeta mato-grossense Manoel de Barros, Coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa, publicado por Record/Altaya, edição de 1993.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Revoluções por Minuto

Então, parece que chegamos, finalmente, à tão esperada Era de Aquarius. Hoje, dia 12 de fevereiro de 2009, véspera de uma sexta-feira 13.
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Não sei o que isto vai significar, nem se vai realmente interferir no andamento das coisas aqui neste planeta, mas o que estou sentindo é que eu vou sair bastante modificada deste ano de 2009. As coisas estão acontecendo numa velocidade tão assustadora que chega a dar medo. Se já estavam aceleradas, agora em janeiro parece que resolveram brincar de Ayrton Senna.
Pois, que venha a Era de Aquarius, com tudo de bom que possa emanar dela!

E pra recebê-la, nada melhor do que esta cena do musical Hair, de Milos Forman, filme que marcou parte da minha infância e a adolescência inteira:

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A música acaba e o ouvido já imerge mentalmente na próxima canção, dando continuidade à trilha sonora.

Este filme teve uma parcela grande de influência nas minhas relações com os musicais, com o canto e a dança, com a História, na minha forma de pensar o mundo, acentuando também o meu apreço pela diversidade e pela liberdade de pensamento. Eu o tenho como uma pérola, no cantinho do peito destinado às obras de Arte.

Nos próximos tempos ainda vou voltar a falar dele, mas em um post mais cuidadoso e aprofundado.

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domingo, 25 de janeiro de 2009

Uma historinha simpática

Há exatos oito anos atrás, no dia 25 de janeiro de 2001, iniciava o primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
A primeira edição teve um número acanhado de participantes ousados e bastante determinados. E com a grande imprensa local fingindo ignorar e até ironizando o evento. A TVE (tv educativa local) foi a única que cobriu todo o evento, mas seu alcance é ínfimo no Estado.
Só que o primeiro deu tão certo que na edição seguinte o número de jornalistas cobrindo o encontro já era quase igual ao número de participantes do primeiro.
E em 2005, a cobertura internacional da imprensa era uma das coisas mais absurdas que vi ao vivo aqui na cidade. Na caminhada de abertura, os canteiros ao longo da Av. Borges de Medeiros eram tomados de repórteres e fotógrafos tentando registrar um imenso tapete de pessoas em comunhão, cada uma se manifestando à sua maneira, numa mistura de povos, crenças, formas, cores, sons, línguas, linguagens e idéias como eu nunca testemunhei igual. Só quem estava lá sabe a emoção que foi tudo aquilo.
E a população do Rio Grande do Sul na praia, completamente alheia a tudo.
Até que, numa bela edição, o evento acabou sendo elevado à condição de moda, pela mesma imprensa que agora se tapeava para conseguir um espaço em meio a tanto interesse internacional e nacional pelo que estava sendo discutido no Fórum e no que ele estava desencadeando em diversos pontos do mundo e do Brasil.
E aí, claro! Todo mundo que ia pra praia em janeiro começou a prestar atenção, a ficar e, vejam só, resolveu participar!
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P.S.: Na primeira edição havia 630 delegados não cadastrados (fora os 4.070 cadastrados). Não cadastrado é quem se inscreve sem estar vinculado a alguma entidade ou organização. E 1.870 jornalistas cobrindo o evento - imprensa internacional + nacional. Na segunda edição havia, só de free-lancers, 697 jornalistas cobrindo o Fórum. Fora todos os outros credenciados, totalizando 3.356 jornalistas para 12.274 delegados (incluindo os não cadastrados). Os não cadastrados também ganhavam uma identificação, mas não podiam assistir as discussões principais (como as conferências) dentro dos auditórios porque não cabia todo mundo e os delegados cadastrados, como eram representantes de entidades, inclusive de muitos lugares diferentes, levariam as discussões adiante em suas organizações e entidades, disseminando assim, as idéias e discussões para um maior número de pessoas e países.
Em 2001 vieram pessoas de 117 países; em 2002, vieram de 123 países; em 2003, de 130 países; em 2005, de 151 países.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Reflexões sobre a cidade

OBS.: o texto que segue é cheio de caraminholas pessoais que estão me incomodando, então não percam seu tempo.


Ainda sobre o conto que escrevi abaixo, alguns meses atrás minha irmã começou a me dizer coisas do tipo: Ah, o centro (de São Leopoldo) tá muito perigoso! Chega 6 horas (da tarde) fica tudo deserto e tal...

Eu, como só vinha zanzando por lá em horário comercial, fiquei um pouco intrigada com aquilo, achando meio exagerado o comentário dela e fui conferir o que ela vinha dizendo.

E não é que isto está realmente acontecendo?! Agora não tanto porque é verão e época de comércio intenso, mas o ambiente se modificou mesmo, o que já não era exatamente novo para mim (que vejo lojas tradicionais fechando desde os anos oitenta), mas criando um clima de cidade deserta que antes, mesmo de madrugada, não havia.

Minha irmã é bem mais nova que eu, não tendo conhecido tanto da história da cidade quanto eu conheci, e tentando entender a extensão do comentário dela, me dei conta do motivo, que talvez seja óbvio para quem está lendo isto, mas que, para mim, não era até pouco tempo atrás: quase todas as ruas do entorno da Rua Grande de São Leopoldo foram transformadas em ruas de comércio, com as fachadas das casas reformadas e ampliadas até a calçada, para serem alugadas para lojinhas e pequenos estabelecimentos. E aí, claro, né?! chega o fim do horário de expediente, todo mundo baixa as cortinas de ferro e fica aquele silêncio de concreto e aço onde antes havia jardins floridos e varandas, com pessoas circulando e tomando chimarrão, com suas janelas abertas e iluminadas.

Hoje em dia, só pode dar medo mesmo!

Não sei muito bem o que pensar disso, porque a gente fica dividido entre o que a cidade era e o que ela está se transformando, e que é um processo de mudanças inevitável, se pensarmos no processo análogo de desenvolvimento dos demais centros urbanos (e aí eu entendo um pouco o lado dos descendentes de alemães quando ficam criticando a descaracterização da cidade e tal, apesar de São Leopoldo já ter, desde a década de 1960, um contigente crescente de não-alemães que foram migrando para os centros urbanos, principalmente após o crescimento das zonas industriais, que durante quatro décadas caracterizaram fortemente a economia local).

Um pequeno parênteses a respeito: tempos atrás eu fiz um levantamento, por curiosidade, numa turma leopoldense em que eu dava aula e do total, apenas dois ou três tinham sobrenome alemão - os demais alunos da turma tinham origens bem diversas e realmente, suas famílias tinham vindo para a região no período que se seguiu à década de 1960, percurso que também se deu com a minha família, e por motivos semelhantes.

Em São Leopoldo, acho que deveria haver um limite imposto por lei para a descaracterização da arquitetura do centro, um que permitisse o desenvolvimento do comércio sem alterar tanto (leia-se padronizar) os prédios locais. Talvez até já haja algo no Plano Diretor da cidade, mas não parece estar vigorando.

Por outro lado, eu fico pensando na história do desenvolvimento de Porto Alegre, minha cidade do coração e por opção. Se pegarmos a história dela, o processo não foi muito diferente. O que aconteceu foi que ela expandiu tanto que estas áreas mais antigas não foram completamente descaracterizadas, surgindo assim outros núcleos de preservação, como algumas ruas do entorno da Redenção, ou mesmo em alguns pontos do centro, como para os lados da Rua Duque de Caxias e em áreas da Cidade Baixa (que também não deixa de ter sido uma modificação induzida, ainda que mais aconchegante). É que São Leopoldo é tão pequena ainda (aglutinada, sem espaço físico para se expandir em função de estar cercada por todos os lados por outros municípios urbanizados) que parece que estas mudanças vão acabar se alastrando e engolindo as belezas da cidade. Fico pensando na Rua Voluntários da Pátria, de Porto Alegre, ou no centro insosso de Canoas quando passo pelas ruas leopoldenses, como se eles fossem um prenúncio do que ela vai se tornar.

São Leopoldo sofreu bastante com o desemprego gerado no período de crise industrial, o que ocasionou muito desemprego na população local. Em função disso e do próprio perfil industrial que perdeu força, a cidade começou a ganhar inúmeros estabelecimentos comerciais, desde as Marisas da vida até os zilhões de 1,99 e lojinhas diversas, principalmente nesta última década, e perdeu, como conseqüência, os estabelecimentos familiares originais e históricos (muitos dos quais eram ainda comandados por famílias locais, com nomes alemães) que existiam até então na cidade, como ocorreu em boa parte dos grandes centros urbanos. Além do que, muitos descendentes de imigrantes alemães deixaram a cidade para morar em outros lugares e os pais e avós, com o tempo foram morrendo ou se rendendo à necessidade de modificação das suas casas pela busca de segurança ou por acabar vendendo as mesmas para a construção de prédios comerciais. Ainda há pequenos paraísos escondidos atrás dos muros opacos ou das fachadas das casas, mas só para quem conhece seus segredos.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um textículo sem compromisso

Então, fiz este texto para uma brincadeira em um outro blog e vou aproveitar e postar aqui também, já um pouquinho modificado:
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Jacaré não entrou no céu

Qual era mesmo o ano? Ah, devia ser por volta de 1984. Era o começo da abertura política, mas ainda vigorava um forte resquício de ditadura militar. Lembro que éramos todos uns fedelhos e havia a tal da Censura, que estipulava uma idade limite para tudo: para ver filme (o tempo das matinês), para ir no clube dançar (somente à tardinha, nas festas para menores), para ver televisão – é, isso não é invenção de agora, não.
Naquela época, São Leopoldo ainda era uma cidade com forte influência alemã, sem a padronização comercial das cortinas de ferro, das lojas de 1,99 e das casas de bingo e mega redes comerciais, características dos grandes centros urbanos atuais. As casas tinham personalidade, com suas varandas e jardins e com as fachadas ornamentais, de aspecto antigo e convidativo. As ruas eram estreitas e de paralelepípedos, iluminadas pelas janelas e burburinhos das residências, onde era possível ver que existia vida em movimento pro trás das paredes, uma realidade distante do desértico silêncio escuro que habita as ruas atuais. E havia o dito “valão”, a céu aberto, como se fosse um mini riacho Ipiranga, localizado onde hoje ficam os canteiros da Avenida João Corrêa. Shopping Center era uma palavra incomum no vocabulário das pessoas, menos ainda da piazada. Havia o Iguatemi, em Porto Alegre, que estava no auge da sua inauguração, um ou outro centro comercial pequeno e só. E existiam os das metrópoles, como o BarraShopping, na Barra da Tijuca, no Rio, e o primeiro Iguatemi, de Salvador.
Em São Leopoldo, os cinemas funcionavam também como ponto cultural, servindo eventualmente de palco para algum festival local. Havia dois cinemas de calçada, o Cine Brasil e o Cine Independência, chamado carinhosamente de “pulgueiro” porque, enfim, não precisa explicar, não é?! E que seria o primeiro a fechar as portas, uma década mais tarde.
Ambos, acho que pertenciam ao mesmo dono, o Seu Não-lembro-o-nome. O Cine Brasil tinha a famosa Sessão de Arte, que ocorria toda a sexta à noite e passava somente filmes que não transitavam no circuito comercial, mais ou menos o que hoje fazem nas salas da Usina do Gasômetro e Casa de Cultura, em Porto Alegre. A Sessão de Arte acabava sendo uma espécie de ponto de encontro cultural da cidade. Diziam que o dono criara a noite de sexta para poder ver os filmes que ele mesmo queria ver e que não podia porque não chegavam aos circuitos oficiais.
Nós costumávamos ir sempre. Naquelas épocas era difícil achar outras opções de filme. Não sei se as locadoras de vídeo não haviam se propagado até a região ou se elas não faziam parte do meu universo particular. Na minha vida, elas passaram a existir na segunda metade da década de 1980.
Eu tinha uma amiga com quem convivia muito nos primeiros anos de colégio. Éramos praticamente irmãs, aquela coisa de se vestir igual, de fazer o mesmo penteado, usar a Melissinha nos mesmos dias e etc. Ela era ótima, mas um pouco desligada.
Uma sexta, meus pais tiveram a idéia de nos levar juntas à Sessão de Arte, para ver o quê? Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, que havia sido filmado há pouco e que não era benquisto pelo pessoal da Ditadura Militar. Como eram anos de abertura política, filmes deste tipo geravam certa ansiedade, uma expectativa diferente, algo como saborear um doce que fora escondido dos olhos em alguma lata secreta que sabíamos existir.
Então, lá fomos nós três: eu, ela e minha mãe – meu pai não sei por que não estava desta vez.
Quando chegamos à bilheteria, minha mãe pediu três ingressos. Como eu tinha cara de mais velha, aparentando 18 ou mais, nunca houve problema de idade. Foi então que o bilheteiro olhou para a minha amiga e apontou para a tarja no cartaz: proibido para menores de 16 anos. Tínhamos 13, na época. O bilheteiro olhou pra cara dela e perguntou: Quantos anos tu tem?
Minha amiga, que sempre foi mais rápida que todo mundo, prontamente disse: Treze. – com a maior cara de pastel. Ele imediatamente respondeu: Então não pode entrar. E tu? – perguntou, me olhando. Eu abri a boca pra responder dezesseis e ela impulsiva e ingenuamente respondeu: Também! com uma cara de pastel, agora chocho.
Pronto! Ficamos as duas do lado de fora. Eu devo ter ficado de fora de todos os filmes proibidos depois disso. Sorte que não durou muito tempo.
No início da década, São Leopoldo ainda era uma cidade onde era possível qualquer um zanzar à noite, a pé e com segurança, pelas ruas da cidade, mas eu não lembro como foi o final da história. Acho que ficamos esperando minha mãe sair da sessão ou algo parecido. Ou subimos de volta para casa.
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domingo, 7 de dezembro de 2008

Difícil é escolher qual delas

Quartchêto é bom demais, siô!
Acho que ainda fico com Pra onde o Sul nos carregue. Ela poderia entrar na minha série Música para Chorar.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Acorde Brasileiro

É tão bom quando tu já esperas muito de uma coisa e ela ainda consegue te surpreeender para melhor...
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Divagações a partir da Estética do Frio.

Obs: se você tem textos realmente relevantes para ler, e a gente sempre tem, não perca seu tempo aqui, que este ainda está muito prolixo.
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Estava relendo o ensaio A Estética do Frio, de Vitor Ramil, e me veio imediatamente à memória a minha experiência como "exilada" do Sul do Brasil. Na realidade, me reportei a uma situação específica que vivenciei, enquanto estava morando no litoral nordestino, lá por 1994. Eu tenho claro para mim que o movimento de me deslocar para viver em um outro Brasil, tropical, distante 3600km, com linguagens e hábitos tão diversos dos que me constituíam, tenha também suscitado em mim, assim como suscitou em Vitor Ramil, questões acerca da identidade cultural a ponto de eu voltar para o Sul bastante incomodada com elas e ir parar justamente no curso de Letras: a que catzo de Brasil pertenço eu, afinal de contas?! - era a pergunta que eu me fazia. Como não tenho o talento de um Vitor, nem tinha clareza da dimensão exata do que me incomodava, fiquei guardando as minhas caraminholas.
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Acho relevante dizer que gosto muitíssimo destes outros Brasis que nos constituem, e, ao contrário de boa parte dos gaúchos, não tenho a menor dificuldade em sair atrás do Trio Elétrico, em dançar axé e forró com bastante desenvoltura, se considerarmos as limitações características da identidade sulina de forte influência européia, enformada pela rigidez física das danças tradicionalistas propagadas através dos CTGs. E nem tenho dificuldades em me deliciar com todo aquele universo nordestino - trecho territorial com o qual tive mais contato.
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Eu morei em Aracaju - Sergipe - e, na época, aquela cidade tinha condições geográficas anuais bastante constantes: anoitecia entre 17:30 e 18:30 horas, amanhecia entre 4:30 e 5:30 horas, havia sempre um vento gostoso, a temperatura - agradável - sofria poucas variações, chovia no inverno, quase não chovia no verão, a temperatura do mar era morna o ano todo. A paisagem litorânea é que era relativamente sem graça em relação ao resto do Estado pois, apesar dos inúmeros coqueiros, a região pegava uma confluência de águas de rio (o rio do Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro) com mar, e os moradores diziam que ela provocava o deslocamento da areia, mais fina naquela região, deixando a água com um aspecto marrom semelhante à do nosso mar, o que negava àquelas praias citadinas uma boa parte do vigor exuberante característico do litoral brasileiro. Mas descendo ou subindo alguns quilômetros, já estávamos nos mares paradisíacos das revistas de turismo.
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Bom, vamos ao fato: uma bela noite, estava eu em frente à televisão depois de já estar bem adaptada à região, em trajes leves, quando o Jornal Nacional anuncia a chegada do inverno no Sul do Brasil, mostrando as imagens. Campos cobertos de geada, gente de poncho, gorros, luvas e casacões, rostos pálidos e movimentos encarangados, aquela coisa toda que conhecemos tão bem.
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A minha reação não foi a mesma do Vitor, de pertencimento e reconhecimento; de reconhecimento sim, mas um reconhecimento permeado por um forte assombro, talvez porque o Rio de Janeiro, onde ele morou, tenha uma temperatura mais próxima do outono gaúcho - lembro de já ter pego 15 graus de temperatura na Cidade Maravilhosa, coisa impensada lá pra cima.
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Quando vi as imagens na TV, imediatamente me reportei àquele universo, senti aquele frio cortante, a situação toda, mas pensei:
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Caramba! Como é que a gente agüenta?!
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A questão crucial que veio para ele, de se identificar com aquele frio metereológico, não foi pra mim uma reação de pertencimento, naquele momento específico. O frio aqui no Sul é muito duro! Não temos infra-estrutura adequada, como a Europa tem, para enfrentá-lo quando ele vem com intensidade. Nos dias de hoje, em função das mudanças climáticas, ele já não ocorre quase, mas há duas décadas atrás quando morei lá as quatro estações ainda eram definidas.
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Há um certo sentimento romântico em relação ao frio sulino. No Rio Grande do Sul, se uma pessoa não tiver o mínimo de infra-estrutura (abrigo fechado, agasalho adequado, comida calórica ou "um trago" bem forte, no caso dos moradores de rua), elas morrem - senão de frio, de doenças respiratórias ou de tanto beber. Já em Aracaju, se as pessoas não tivessem dinheiro para comprar roupa, tudo bem, não há frio mesmo e se ela fosse lavada de manhã, de meio-dia já estava seca.
Em relação à comida, as pessoas tinham o mar e o rio, muita fruta substanciosa e barata, farinha de mandioca (que lá é diversificada e deliciosa) e caranguejo no mangue.
Em relação à moradia, nunca me esqueço de umas casas localizadas na vila de pescadores da Barra do Coqueiros, do outro lado do rio em frente à cidade, que tinham os telhados de laterais completamente abertas e cujos os móveis eram construídos no próprio concreto das casas. Nós acordávamos com os macacos da ilha nos olhando, empoleirados nas vigas. Na realidade, eu é que achava a Barra com cara de ilha, mas ela tem conexão com a terra no lado norte. Naquelas casas, bastava um colchão, a geladeira, o fogão e umas almofadas para se viver.
Em relação a tempestades, a região onde morei também não sofria com grandes ventanias nem temporais medonhos que nem aqui, nem temperaturas baixas demais ou ventos que doem como agulhas fincadas na pele, como quando sopra o Minuano. Os chuveiros da cidade não tinham a opção de "morno" nem nas casas mais abastadas, porque eles não têm, ainda hoje, o hábito de mudar a temperatura da água. Eles também quase não tinham venezianas nas casas e edifícios. Ou eram janelas de vidro com cortinas ou eram de madeira inteira.

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Em grande parte, as minhas percepções permeavam as mesmas descritas no texto de Vitor Ramil:

"E me dei conta de que o frio simbolizava o Rio Grande do Sul. Passei a ver o frio como metáfora amplamente definidora do gaúcho.
Esta idéia foi-se enchendo de sentido na medida em que, morando no Rio de Janeiro e viajando constantemente pelo Brasil, passei a sentir o clima tropical – a regularidade de um clima de mudanças tão discretas entre as estações; o calor; a presença constante e vital do sol, do mar e dos rios – como um grande pano de fundo onde se repetiam certas características que pareciam unificar o modo de ser dos brasileiros em sua diversidade. Deparei-me em muitos lugares – e lugares distantes entre si – com um mundo de valores, de hábitos, de gostos e anseios compartilhados que para mim não tinham a mesma significação. Mais objetivamente, vivenciei a expansividade, o excesso, o emocional, o gosto pelas ruas, pela diversão, pela alegria, pelo culto ao corpo, pela dança, pelo ritmo, pelo colorido, pela espontaneidade, pelo caos, pelo múltiplo, pelo variado, pelo eclético, etc." (trecho de Estética do Frio)

Eu reconheci a minha experiência e as minhas percepções no que para ele foi "viver em um clima tropical", tanto no que diz respeito às mudanças tão discretas, quanto no que diz respeito à expansividade, ao excesso, ao emocional, ao gosto pelas ruas e tudo aquilo.

Entretanto o meu exílio foi um outro, mas que desencadeou o mesmo sentimento de "frio" que deu origem à Estética:

Sempre tive uma relação dúbia com o frio sulino. Se por um lado eu sofria com a falta de infra-estrutura adequada, por outro lado gostava demais do universo todo que ele compõe, do pinhão na chapa do fogão a lenha, dos cheiros, do café saboroso (o hábito do chimarrão, eu adquiri em Aracaju - é, pois é) do vinho, dos momentos todos em volta da mesa, das comidas diversificadas e a mesa farta, das roupas elegantes e aconchegantes, de dormir embaixo das cobertas, do vento gelado no rosto, da melancolia das praias no inverno, do barro vermelho do Alto Uruguai nos sapatos e a fumaça das chaminés das casas.


O meu Rio Grande do Sul não era o do pampa, mas o da metade norte, da serra para cima, até o Alto Uruguai e Planalto Médio. Lá não tem reta, mas montanhas, morros e coxilhas. Lá não tem campo, mas plantações de milho, trigo e soja, mato verde e barro vermelho. E no caminho de quem segue para o noroeste tem rios de corredeiras, riachos, pinheiros e muito morro.

Mas o sentimento de um "frio" simbólico, invocado pela imagem da solidão e melancolia da vastidão horizontal do pampa que o Ian descreveu tão bem e reforçou como referência para a construção da Estética do Frio de Vitor Ramil, naquele sim, eu me reconheço.

Ian Alexander (que é australiano, portanto um estrangeiro) apresentou uma análise a partir da Estética do Frio de Vitor Ramil tendo com referência esta percepção simbólica de "frio" elaborada a partir da figura de um ser construído - o gaúcho introspectivo e solitário do pampa -figura referencial para Vitor Ramil na construção da Estética do Frio, mas ilusória enquanto inexistente para além do imaginário do compositor e autor. Inexistente porque, na análise de Ian, este parte do pressuposto de que Vitor Ramil é um homem urbano, nascido e criado em Pelotas, logo não teria vivenciado as lides do gaúcho pampeano, este que povoa e centraliza o imaginário da identidade gaúcha.
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Observando Ian falar, eu enxerguei claramente o motivo que me fez querer voltar de Aracaju para o Sul cheia de saudades e com uma sensação de não-pertencimento. O meu exílio foi permeado pela ausência dos contrastes existentes aqui no Sul nos quais eu me reconheço e os quais eu não consegui identificar no Nordeste. Não era tanto pelo aspecto do frio, mas pela ausência do contraste entre frio e calor, entre paisagens tão distintas como o pampa, o litoral, a serra, o planalto, a região metropolitana, a fronteira. O Rio Grande do Sul é muito diversificado dentro dele mesmo, é um microuniverso dentro de um macrouniverso chamado Brasil, embora seja recorrente uma tentativa muito forte de propagar a idéia de uma identidade única e mítica, e, neste caso, não estou me referindo ao ensaio de Vitor Ramil. O território gaúcho tem regiões, culturas, identidades, formas artísticas, temperaturas, comidas, modos de viver e linguagens notadamente diferentes entre si. E tudo dentro de um mesmo Estado que pode ser atravessado em, sei lá, 15 horas. A diversidade não está, a meu ver, na relação com o Brasil, como parece constar na Estética do Frio. Ela já é forte o bastante dentro do próprio Rio Grande do Sul.
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No litoral nordestino, em 15 horas eu teria passado por quase cinco estados de tamanho mediano para pequeno, sem grandes variações climáticas e morfológicas perceptíveis, sem grandes variações linguísticas e culturais visíveis "a olho cru", sem grandes contrastes de vestuário, onde predominaria o forró (inverno) e o axé (verão). A pouca incidência de bebidas quentes, que não apetecem por lá, a constante superexposição do corpo, que não deixa a pele descansar para se refazer, toda esta falta dos contrastes nos quais eu me reconhecia, ela é que desancadeou meu sentimento de exílio: estar apartada desta diversidade singular e concentrada que eu tinha no Sul.
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Naquela época eu ainda não percebia a série de detalhes e riquezas no Nordeste que aparecem descritas por Vitor Ramil quando ele se refere a caos, múltiplo, variado e eclético, a diversidade que hoje provavelmente meu olhar captaria, mas eu já tinha a percepção da diversidade na cultura gaúcha, então ela devia ser, sim, mais perceptível que a lá de cima.
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Mas uma curiosidade boba, mas que me chamou a atenção na época e que não tem a ver com o texto da Estética do Frio foi a necessidade de viver em ciclo que eles têm, ainda que em um ciclo mais suave que o nosso. Eu achava que isso era uma característica nossa imposta pela vinda do frio e suas consequências, mas percebi que os sergipanos reagem aos ciclos da natureza de forma parecida com a nossa. No outono, os moradores locais ficam mais introspectivos, circulam menos, procuram-se menos, diminuem o ritmo dos exercícios físicos, freqüentam a praia para confraternizar, não para tomar banho ou pegar sol, mas não há, mesmo assim, como escapar de dourar a pele. Então quando vem a primavera, como aqui no Sul, eles saem para as ruas empolgadíssimos, cheios de energia, malham, se encontram, namoram. Depois vem o verão com seu carnaval eterno e enlouquecido e, no outono, o pico de energia é reduzido novamente. Claro que com contrastes bem mais tênues que os daqui, mas é curioso observar este lado "biológico" do ser humano em um território tão tropical quanto o deles que supostamente não necessitaria desse resguardo.
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Outra diferença está nas relações afetivas: aqui no Sul, há uma certa rigidez de limites definido entre as pessoas. É mais difícil alguém chegar na casa do outro para visitar, dormir ou tomar banho e ir entrando sem receber um convite ou sem avisar antes. No Nordeste eles não cultivam aparentemente essas formalidades que nós cultivamos. Pelo menos entre pessoas de faixas econômicas próximas.
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Finalizando as reflexões iniciais, comungo com as idéias do ensaio em vários aspectos, mas discordo de alguns pequeninos pontos, como na percepção do pampa em oposição aos morros cariocas. Os morros e montanhas são parte considerável já no próprio cenário gaúcho, na medida em que neles está concentrada boa parte da população e da diversidade cultural. Ignorá-los é reduzir bastante a diversidade local, reforçando o mito do gaúcho da identidade única. A multiplicidade referida no texto parece ser a existente no Estado e não somente a dos demais territórios brasileiros. E é curioso que um povo tão permeado pela contenção e concisão na expressão das emoções seja paradoxalmente exagerado na forma, no hiperbolismo das falas, dos tons, dos gestos - o grotesco e o sutil que aparecem na Estética.
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Outra coisa, se como relata o Vitor em sua busca pela forma ideal pra expressar o sentimento de frio "a milonga era feita da mesma matéria de que era feita a imagem do gaúcho e do pampa" ela não estaria, de certa forma, reforçando o mito do gaúcho?
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Quanto à nossa formação identitária, para mim não há mesmo como negar: nascer e viver no Rio Grande do Sul é compartilhar de uma identidade singular em relação aos tantos brasileiros que habitam o Brasil, pelo menos no que diz respeito à região litorânea do país.
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Acorde, Brasileiro!

Semana que vem tem a 2ª Edição do Acorde Brasileiro. Parece que foi ontem que acabou o primeiro...
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Feira do Livro

Bah, amanhã vai ter Caju e Castanha na Feira...
E Cartola e Arquisarau IV e Machadinho e Guimarães e Lacan e Herencia Gaitera de San Jacinto e...e...puts! E vai dar colisão.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O tempo dos jacarandás

E estamos em mais uma Feira do Livro.
Desta vez tenho que ficar um pouco de molho, apesar de ter gostado do que vi hoje. Não posso cair em tentação e livros em bando e em oferta são quase irresistíveis.
É tão bom ir lá, aprender coisas novas, descobrir outras, achar aquele livro que a gente nem sabia que existia ou do qual nem lembrávamos mais, encontrar os amigos de sempre e os amigos das Feiras e os amigos sumidos e os novos amigos. E comer acarajé. Sim, eu adoro comer acarajé na Feira do Livro! Claro que eu lavo as mãos depois, pelo bem da Feira.
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PS.: Por que nesta cor? Tsic tsic...
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Quando a Cultura Popular e a Academia se encontram

Eu tive a oportunidade de assistir este show, ao vivo, de Benjamim Taubkin com o Núcleo de Música do Abaçaí no Unicultura da UFRGS, Edição 2008, e foi uma das experiências sonoras e visuais mais gratificantes das últimas edições do Uni. Apesar do vídeo reduzir boa parte da beleza do show dá para se ter uma idéia:
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Foi um espetáculo de extasiar a alma. Os arranjos bem construídos, a seleção musical deliciosa que viajou das caixeiras do Divino, do Maranhão, à ciranda pernambucana de Dona Lia de Itamaraca, aos cocos de Alagoas e Bahia descendo para o Congado Mineiro, com o moçambique, toda essa riqueza cultural, e mais um pouco ainda, expressada nas vozes das cantoras Mazé Cintra, Verlúcia Nogueira e Neuza de Souza em contraste com a voz grave e encorpada de Sapopemba, e junto com a delicadeza sofisticada do piano de Benjamim Taubkin, com o acompanhamento do contrabaixo de João Taubkin e com as construções percussivas de Ari Colares, de Sapopemba e das caixas e sapateados das mulheres, todos esses elementos formaram uma combinação embriagante não somente aos ouvidos, mas aos olhos e músculos de todos nós que estivemos lá naquela noite.
São essas maravilhas que fazem eu me orgulhar imensamente de ser brasileira.
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domingo, 26 de outubro de 2008

Para refletir

Em "O Homem Cordial", de Raízes do Brasil:
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“ (...) Não era fácil aos detentores das posições públicas de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público. Assim, eles se caracterizam justamente pelo que separa o funcionário “patrimonial” do puro burocrata conforme definição de Max Weber. Para o funcionário “patrimonial”, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se aos direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos. A escolha dos homens que irão exercer funções públicas faz-se de acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muito menos de acordo com as suas capacidades próprias. Falta a tudo a ordenação impessoal que caracteriza a vida do Estado burocrático. O funcionalismo patrimonial pode, com a progressiva divisão das funções e com a racionalização, adquirir traços burocráticos. Mas em sua essência ele é tanto mais diferente do burocrático, quanto mais caracterizados estejam os dois tipos.
No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. Dentre esses círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu com mais força e desenvoltura em nossa sociedade. E um dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar – a esfera, por excelências dos chamados “contatos primários”, dos laços de sangue e de coração – está em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. Isso ocorre mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, pretendem assentar a sociedade em normas antiparticulares. (...)” (HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 145-146)
PS: Isto não é um recado para ninguém em especial.
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