Um amigo meu que é músico disse uma vez que, de tempos em tempos, é preciso limpar os ouvidos de música. Ficar em silêncio, sem ouvir nada, para recuperar a sensibilidade embotada. Faz sentido! Chega uma hora em que os ouvidos estão tão saturados que perdemos um pouco do impacto.
Fazendo um pequeno parênteses, eu ouvi uma história, tempos atrás, de que o Roger Waters usaria um recurso nos shows dele que consistiria em colocar um som imperceptível momentos antes da abertura. O som serviria sutilmente para limpar os ouvidos do público, ampliando a percepção das pessoas, como a água que é servida junto com os vinhos. Então quando chegasse o momento do show as pessoas estariam preparadas para receber todo o impacto sonoro. Não sei se isso é verdade mesmo, mas é uma idéia curiosa.
Bom, voltando ao assunto, o mesmo processo de saturação acho que serve para situações nas quais ficamos ouvindo os mesmos gêneros musicais ou tipos de sons semelhantes por muito tempo. No meu caso, por anos a fio. Cansa! É claro que melhora a percepção, cria referências e uma bagagem mínima de comparação, o que é útil e necessário. Mas eu sinto que estou cansada, que preciso mudar um pouco, tirar umas férias musicais. De uns tempos pra cá, tenho notado que meus ouvidos estão levemente saturados de música brasileira. Não que eu não goste dela, pelo contrário. Sou apaixonada pela diversidade cutural deste idiossincrático país e por todas as mesclas sonoras que andam acontecendo pelo território, do Oiapoque ao Chuí, em todas as direções possíveis. Só estou precisando de outros ares, para desencharcar um pouco. A gota d'água aconteceu com algumas canções do Coldplay e da Amy Winehouse. A branca mais preta da Inglaterra, plagiando a clássica frase de Vinícius de Morais, não tem me pego tanto, mesmo com o suingue de Rehab e com sua voz maravilhosa, acho que em função do tom depressivo, puxando para uma atmosfera outonal, como em You Know I'm No Good, Back to Black e Love Is a Losing Game, que eu acho deliciosas, mas melancólicas.
Já o Coldplay me pega, talvez pelos arranjos mais solares da temporada de 2008. Ele pede uma atmosfera celebrativa, meio marcial. Amigos meus têm comentado sobre a vinda da Madonna, do R.E.M. e de outras bandas consagradas por estas terras brasilleñas, mas eu acho que se fosse escolher uma única banda para vir à Porto Alegre, escolheria o Coldplay. Um estádio cheio de Clocks, Violet Hill, Yellow (acústico) e Viva La Vida para dançar e cantar até se estabacar era tudo o que eu precisava para recuperar os sentidos. E, de preferência, bem perto do palco para ver a performance física do vocalista, que depois que deixou crescer o cabelo parece que virou outra pessoa, com um domínio de corpo bem explorado, recheado de gestos e de expressões faciais, mais confiante. Claro que o caleidoscópio aqui não poderia deixar de perceber a mudança gestual e como sempre, ficar hipnotizada. Definitivamente gente em movimento é uma das minhas grandes paixões mesmo.
E a música é uma arte imprevisível, que pega por caminhos sutis e inesperados, tanto a quem toca, quanto a quem ouve.
Tenho tentado pensar o que faz com que este ou aquele som entre nos meus ouvidos e não saia mais. Tempos atrás eu estava em uma fase Jaime Roos. Fiquei obcecada pelo trabalho dele e quase furei o cd de tanto repetir trechos. Depois foi com a hipnotizante trilha circular de Yann Tiersen para o filme Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain. Essa eu entendo melhor, porque a circularidade dela já é naturalmente hipnotizadora, e também ótima de tocar na flauta. Já com o Coldplay foi o som mesmo e a performance do Chris Martin, the bandleader. As letras me parecem fracas. Além do magnetismo do vocalista, a batida eu acho que foi o que mais me pegou. Aquela entrada forte depois da introdução do teclado, em Clocks, a forma como ele colocou a voz e o prazer de tocar, quase em transe. Violet Hill me remeteu quase imediatamente aos Beatles e ao Pink Floyd. E de novo a parceria teclado e bumbo hipnotizando. Quanto a Viva La Vida a música também me pegou em cheio, desde o início até o final, mas o que realmente me impressionou foi o clipe. Tu só consegue olhar para o vocalista: as expressões, os movimentos, as palavras bem articuladas. Ali ele aprendeu a usar o corpo e não parou mais. E de novo a batida controlando o ritmo cardíaco. E o sino, que me traz fortes lembranças e referências afetivas. Fiquei com vontade de ouvir todo o trabalho para poder observar o conjunto da obra. Em relação a Yellow, que já era legal antes, eu gostei da versão acústica mesmo, com ele cantando mais para o grave que para o agudo. Enfim, coitados dos meus vizinhos quando eu conseguir essas músicas em cd.
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