OBS.: o texto que segue é cheio de caraminholas pessoais que estão me incomodando, então não percam seu tempo.
Ainda sobre o conto que escrevi abaixo, alguns meses atrás minha irmã começou a me dizer coisas do tipo: Ah, o centro (de São Leopoldo) tá muito perigoso! Chega 6 horas (da tarde) fica tudo deserto e tal...
Eu, como só vinha zanzando por lá em horário comercial, fiquei um pouco intrigada com aquilo, achando meio exagerado o comentário dela e fui conferir o que ela vinha dizendo.
E não é que isto está realmente acontecendo?! Agora não tanto porque é verão e época de comércio intenso, mas o ambiente se modificou mesmo, o que já não era exatamente novo para mim (que vejo lojas tradicionais fechando desde os anos oitenta), mas criando um clima de cidade deserta que antes, mesmo de madrugada, não havia.
Minha irmã é bem mais nova que eu, não tendo conhecido tanto da história da cidade quanto eu conheci, e tentando entender a extensão do comentário dela, me dei conta do motivo, que talvez seja óbvio para quem está lendo isto, mas que, para mim, não era até pouco tempo atrás: quase todas as ruas do entorno da Rua Grande de São Leopoldo foram transformadas em ruas de comércio, com as fachadas das casas reformadas e ampliadas até a calçada, para serem alugadas para lojinhas e pequenos estabelecimentos. E aí, claro, né?! chega o fim do horário de expediente, todo mundo baixa as cortinas de ferro e fica aquele silêncio de concreto e aço onde antes havia jardins floridos e varandas, com pessoas circulando e tomando chimarrão, com suas janelas abertas e iluminadas.
Hoje em dia, só pode dar medo mesmo!
Não sei muito bem o que pensar disso, porque a gente fica dividido entre o que a cidade era e o que ela está se transformando, e que é um processo de mudanças inevitável, se pensarmos no processo análogo de desenvolvimento dos demais centros urbanos (e aí eu entendo um pouco o lado dos descendentes de alemães quando ficam criticando a descaracterização da cidade e tal, apesar de São Leopoldo já ter, desde a década de 1960, um contigente crescente de não-alemães que foram migrando para os centros urbanos, principalmente após o crescimento das zonas industriais, que durante quatro décadas caracterizaram fortemente a economia local).
Um pequeno parênteses a respeito: tempos atrás eu fiz um levantamento, por curiosidade, numa turma leopoldense em que eu dava aula e do total, apenas dois ou três tinham sobrenome alemão - os demais alunos da turma tinham origens bem diversas e realmente, suas famílias tinham vindo para a região no período que se seguiu à década de 1960, percurso que também se deu com a minha família, e por motivos semelhantes.
Em São Leopoldo, acho que deveria haver um limite imposto por lei para a descaracterização da arquitetura do centro, um que permitisse o desenvolvimento do comércio sem alterar tanto (leia-se padronizar) os prédios locais. Talvez até já haja algo no Plano Diretor da cidade, mas não parece estar vigorando.
Por outro lado, eu fico pensando na história do desenvolvimento de Porto Alegre, minha cidade do coração e por opção. Se pegarmos a história dela, o processo não foi muito diferente. O que aconteceu foi que ela expandiu tanto que estas áreas mais antigas não foram completamente descaracterizadas, surgindo assim outros núcleos de preservação, como algumas ruas do entorno da Redenção, ou mesmo em alguns pontos do centro, como para os lados da Rua Duque de Caxias e em áreas da Cidade Baixa (que também não deixa de ter sido uma modificação induzida, ainda que mais aconchegante). É que São Leopoldo é tão pequena ainda (aglutinada, sem espaço físico para se expandir em função de estar cercada por todos os lados por outros municípios urbanizados) que parece que estas mudanças vão acabar se alastrando e engolindo as belezas da cidade. Fico pensando na Rua Voluntários da Pátria, de Porto Alegre, ou no centro insosso de Canoas quando passo pelas ruas leopoldenses, como se eles fossem um prenúncio do que ela vai se tornar.
São Leopoldo sofreu bastante com o desemprego gerado no período de crise industrial, o que ocasionou muito desemprego na população local. Em função disso e do próprio perfil industrial que perdeu força, a cidade começou a ganhar inúmeros estabelecimentos comerciais, desde as Marisas da vida até os zilhões de 1,99 e lojinhas diversas, principalmente nesta última década, e perdeu, como conseqüência, os estabelecimentos familiares originais e históricos (muitos dos quais eram ainda comandados por famílias locais, com nomes alemães) que existiam até então na cidade, como ocorreu em boa parte dos grandes centros urbanos. Além do que, muitos descendentes de imigrantes alemães deixaram a cidade para morar em outros lugares e os pais e avós, com o tempo foram morrendo ou se rendendo à necessidade de modificação das suas casas pela busca de segurança ou por acabar vendendo as mesmas para a construção de prédios comerciais. Ainda há pequenos paraísos escondidos atrás dos muros opacos ou das fachadas das casas, mas só para quem conhece seus segredos.
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