domingo, 30 de novembro de 2008

Memórias de um passado recente

Esta semana tive uma surpresa que desencadeou emoções mistas de saudosismo e alívio, melancolia e reconhecimento de que mudanças são necessárias, de uma certa tristeza temperada com pitadas de alegria:

Elevador
(Kledir Ramil)
Esse elevador não vai
Além do sétimo e eu canto pra me consolar
Esse elevador não vai
Além de cores duvidosas e pouco reais
Esse elevador não vai
Além de números impressos brancos nos botões
Eu não
Nesse elevador não ponho o pé eu não
Pé eu não
Eu não
Nesse elevador não ponho o pé eu não
Esse elevador não vai
Além de plásticos artistas super siderais
Esse elevador não vai
Além de místicos dramáticos e teatrais
Esse elevador não vai
Além de músicos neuróticos sensacionais
Eu não
Nesse elevador não ponho o pé eu não
Pé eu não
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A canção acima é do disco Aqui, dos Almôndegas, de 1975. Qualquer semelhança com os elevadores do Instituto de Artes da UFRGS não é mera coincidência.
Para quem nunca esteve lá o IA é o prédio da UFRGS por onde circulam os estudantes da Música, do Teatro e das Artes Plásticas.
Pois então, os famosos e dramáticos elevadores estão sendo reformados. O da esquerda já foi completamente extirpado e já está com um novo modelo em operação. O outro ainda está em vias de.
Os dois elevadores já eram caquéticos em 1975, época em que devem ter inspirado a canção, e nós estamos em 2008. Sempre tive um certo medo de andar neles. Me lembravam aqueles dos filmes de suspense, mas em tamanho compacto. Quando tomava um deles ficava com a sensação de que a qualquer momento ou iriam despencar andar abaixo de repente ou iriam continuar subindo e romper prédio afora, como no elevador do filme original d'A Fantástica Fábrica de Chocolate, com o significativo detalhe de que eles não teriam a mínima condição de voar, como no filme, mas despencar em curva para alguma rua próxima. Vá saber por que eu sentia isso, se eles nem chegavam até o último andar.
Foi tão estranha a sensação de subir as escadas do saguão e encontrar o tapume das obras, olhar para aquela nova porta metálica e fria se abrindo higiênica e silenciosamente e constatar que eu nunca mais veria de novo os antigos elevadores. Era como ver um pedacinho de história indo embora.
Enfim, o tempo passa e a vida vai se adaptando.
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sábado, 29 de novembro de 2008

Queridos para sempre

Engraçado, certas pessoas voltam às nossas vidas depois de tempos e partem novamente para longe e, na realidade, parece que elas sempre estiveram aqui, como se nunca tivessem partido, como se nunca tivéssemos nos afastado. A vida é sempre tão generosa comigo....


PS.: Para o Lúcio, com um carinho cheirando a projetores de slides, Pluft, O Fantasminha e velhas fotografias. E para Aliana, que ficou em casa ajeitando o ninho.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Acorde Brasileiro

É tão bom quando tu já esperas muito de uma coisa e ela ainda consegue te surpreeender para melhor...
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Divagações a partir da Estética do Frio.

Obs: se você tem textos realmente relevantes para ler, e a gente sempre tem, não perca seu tempo aqui, que este ainda está muito prolixo.
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Estava relendo o ensaio A Estética do Frio, de Vitor Ramil, e me veio imediatamente à memória a minha experiência como "exilada" do Sul do Brasil. Na realidade, me reportei a uma situação específica que vivenciei, enquanto estava morando no litoral nordestino, lá por 1994. Eu tenho claro para mim que o movimento de me deslocar para viver em um outro Brasil, tropical, distante 3600km, com linguagens e hábitos tão diversos dos que me constituíam, tenha também suscitado em mim, assim como suscitou em Vitor Ramil, questões acerca da identidade cultural a ponto de eu voltar para o Sul bastante incomodada com elas e ir parar justamente no curso de Letras: a que catzo de Brasil pertenço eu, afinal de contas?! - era a pergunta que eu me fazia. Como não tenho o talento de um Vitor, nem tinha clareza da dimensão exata do que me incomodava, fiquei guardando as minhas caraminholas.
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Acho relevante dizer que gosto muitíssimo destes outros Brasis que nos constituem, e, ao contrário de boa parte dos gaúchos, não tenho a menor dificuldade em sair atrás do Trio Elétrico, em dançar axé e forró com bastante desenvoltura, se considerarmos as limitações características da identidade sulina de forte influência européia, enformada pela rigidez física das danças tradicionalistas propagadas através dos CTGs. E nem tenho dificuldades em me deliciar com todo aquele universo nordestino - trecho territorial com o qual tive mais contato.
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Eu morei em Aracaju - Sergipe - e, na época, aquela cidade tinha condições geográficas anuais bastante constantes: anoitecia entre 17:30 e 18:30 horas, amanhecia entre 4:30 e 5:30 horas, havia sempre um vento gostoso, a temperatura - agradável - sofria poucas variações, chovia no inverno, quase não chovia no verão, a temperatura do mar era morna o ano todo. A paisagem litorânea é que era relativamente sem graça em relação ao resto do Estado pois, apesar dos inúmeros coqueiros, a região pegava uma confluência de águas de rio (o rio do Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro) com mar, e os moradores diziam que ela provocava o deslocamento da areia, mais fina naquela região, deixando a água com um aspecto marrom semelhante à do nosso mar, o que negava àquelas praias citadinas uma boa parte do vigor exuberante característico do litoral brasileiro. Mas descendo ou subindo alguns quilômetros, já estávamos nos mares paradisíacos das revistas de turismo.
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Bom, vamos ao fato: uma bela noite, estava eu em frente à televisão depois de já estar bem adaptada à região, em trajes leves, quando o Jornal Nacional anuncia a chegada do inverno no Sul do Brasil, mostrando as imagens. Campos cobertos de geada, gente de poncho, gorros, luvas e casacões, rostos pálidos e movimentos encarangados, aquela coisa toda que conhecemos tão bem.
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A minha reação não foi a mesma do Vitor, de pertencimento e reconhecimento; de reconhecimento sim, mas um reconhecimento permeado por um forte assombro, talvez porque o Rio de Janeiro, onde ele morou, tenha uma temperatura mais próxima do outono gaúcho - lembro de já ter pego 15 graus de temperatura na Cidade Maravilhosa, coisa impensada lá pra cima.
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Quando vi as imagens na TV, imediatamente me reportei àquele universo, senti aquele frio cortante, a situação toda, mas pensei:
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Caramba! Como é que a gente agüenta?!
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A questão crucial que veio para ele, de se identificar com aquele frio metereológico, não foi pra mim uma reação de pertencimento, naquele momento específico. O frio aqui no Sul é muito duro! Não temos infra-estrutura adequada, como a Europa tem, para enfrentá-lo quando ele vem com intensidade. Nos dias de hoje, em função das mudanças climáticas, ele já não ocorre quase, mas há duas décadas atrás quando morei lá as quatro estações ainda eram definidas.
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Há um certo sentimento romântico em relação ao frio sulino. No Rio Grande do Sul, se uma pessoa não tiver o mínimo de infra-estrutura (abrigo fechado, agasalho adequado, comida calórica ou "um trago" bem forte, no caso dos moradores de rua), elas morrem - senão de frio, de doenças respiratórias ou de tanto beber. Já em Aracaju, se as pessoas não tivessem dinheiro para comprar roupa, tudo bem, não há frio mesmo e se ela fosse lavada de manhã, de meio-dia já estava seca.
Em relação à comida, as pessoas tinham o mar e o rio, muita fruta substanciosa e barata, farinha de mandioca (que lá é diversificada e deliciosa) e caranguejo no mangue.
Em relação à moradia, nunca me esqueço de umas casas localizadas na vila de pescadores da Barra do Coqueiros, do outro lado do rio em frente à cidade, que tinham os telhados de laterais completamente abertas e cujos os móveis eram construídos no próprio concreto das casas. Nós acordávamos com os macacos da ilha nos olhando, empoleirados nas vigas. Na realidade, eu é que achava a Barra com cara de ilha, mas ela tem conexão com a terra no lado norte. Naquelas casas, bastava um colchão, a geladeira, o fogão e umas almofadas para se viver.
Em relação a tempestades, a região onde morei também não sofria com grandes ventanias nem temporais medonhos que nem aqui, nem temperaturas baixas demais ou ventos que doem como agulhas fincadas na pele, como quando sopra o Minuano. Os chuveiros da cidade não tinham a opção de "morno" nem nas casas mais abastadas, porque eles não têm, ainda hoje, o hábito de mudar a temperatura da água. Eles também quase não tinham venezianas nas casas e edifícios. Ou eram janelas de vidro com cortinas ou eram de madeira inteira.

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Em grande parte, as minhas percepções permeavam as mesmas descritas no texto de Vitor Ramil:

"E me dei conta de que o frio simbolizava o Rio Grande do Sul. Passei a ver o frio como metáfora amplamente definidora do gaúcho.
Esta idéia foi-se enchendo de sentido na medida em que, morando no Rio de Janeiro e viajando constantemente pelo Brasil, passei a sentir o clima tropical – a regularidade de um clima de mudanças tão discretas entre as estações; o calor; a presença constante e vital do sol, do mar e dos rios – como um grande pano de fundo onde se repetiam certas características que pareciam unificar o modo de ser dos brasileiros em sua diversidade. Deparei-me em muitos lugares – e lugares distantes entre si – com um mundo de valores, de hábitos, de gostos e anseios compartilhados que para mim não tinham a mesma significação. Mais objetivamente, vivenciei a expansividade, o excesso, o emocional, o gosto pelas ruas, pela diversão, pela alegria, pelo culto ao corpo, pela dança, pelo ritmo, pelo colorido, pela espontaneidade, pelo caos, pelo múltiplo, pelo variado, pelo eclético, etc." (trecho de Estética do Frio)

Eu reconheci a minha experiência e as minhas percepções no que para ele foi "viver em um clima tropical", tanto no que diz respeito às mudanças tão discretas, quanto no que diz respeito à expansividade, ao excesso, ao emocional, ao gosto pelas ruas e tudo aquilo.

Entretanto o meu exílio foi um outro, mas que desencadeou o mesmo sentimento de "frio" que deu origem à Estética:

Sempre tive uma relação dúbia com o frio sulino. Se por um lado eu sofria com a falta de infra-estrutura adequada, por outro lado gostava demais do universo todo que ele compõe, do pinhão na chapa do fogão a lenha, dos cheiros, do café saboroso (o hábito do chimarrão, eu adquiri em Aracaju - é, pois é) do vinho, dos momentos todos em volta da mesa, das comidas diversificadas e a mesa farta, das roupas elegantes e aconchegantes, de dormir embaixo das cobertas, do vento gelado no rosto, da melancolia das praias no inverno, do barro vermelho do Alto Uruguai nos sapatos e a fumaça das chaminés das casas.


O meu Rio Grande do Sul não era o do pampa, mas o da metade norte, da serra para cima, até o Alto Uruguai e Planalto Médio. Lá não tem reta, mas montanhas, morros e coxilhas. Lá não tem campo, mas plantações de milho, trigo e soja, mato verde e barro vermelho. E no caminho de quem segue para o noroeste tem rios de corredeiras, riachos, pinheiros e muito morro.

Mas o sentimento de um "frio" simbólico, invocado pela imagem da solidão e melancolia da vastidão horizontal do pampa que o Ian descreveu tão bem e reforçou como referência para a construção da Estética do Frio de Vitor Ramil, naquele sim, eu me reconheço.

Ian Alexander (que é australiano, portanto um estrangeiro) apresentou uma análise a partir da Estética do Frio de Vitor Ramil tendo com referência esta percepção simbólica de "frio" elaborada a partir da figura de um ser construído - o gaúcho introspectivo e solitário do pampa -figura referencial para Vitor Ramil na construção da Estética do Frio, mas ilusória enquanto inexistente para além do imaginário do compositor e autor. Inexistente porque, na análise de Ian, este parte do pressuposto de que Vitor Ramil é um homem urbano, nascido e criado em Pelotas, logo não teria vivenciado as lides do gaúcho pampeano, este que povoa e centraliza o imaginário da identidade gaúcha.
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Observando Ian falar, eu enxerguei claramente o motivo que me fez querer voltar de Aracaju para o Sul cheia de saudades e com uma sensação de não-pertencimento. O meu exílio foi permeado pela ausência dos contrastes existentes aqui no Sul nos quais eu me reconheço e os quais eu não consegui identificar no Nordeste. Não era tanto pelo aspecto do frio, mas pela ausência do contraste entre frio e calor, entre paisagens tão distintas como o pampa, o litoral, a serra, o planalto, a região metropolitana, a fronteira. O Rio Grande do Sul é muito diversificado dentro dele mesmo, é um microuniverso dentro de um macrouniverso chamado Brasil, embora seja recorrente uma tentativa muito forte de propagar a idéia de uma identidade única e mítica, e, neste caso, não estou me referindo ao ensaio de Vitor Ramil. O território gaúcho tem regiões, culturas, identidades, formas artísticas, temperaturas, comidas, modos de viver e linguagens notadamente diferentes entre si. E tudo dentro de um mesmo Estado que pode ser atravessado em, sei lá, 15 horas. A diversidade não está, a meu ver, na relação com o Brasil, como parece constar na Estética do Frio. Ela já é forte o bastante dentro do próprio Rio Grande do Sul.
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No litoral nordestino, em 15 horas eu teria passado por quase cinco estados de tamanho mediano para pequeno, sem grandes variações climáticas e morfológicas perceptíveis, sem grandes variações linguísticas e culturais visíveis "a olho cru", sem grandes contrastes de vestuário, onde predominaria o forró (inverno) e o axé (verão). A pouca incidência de bebidas quentes, que não apetecem por lá, a constante superexposição do corpo, que não deixa a pele descansar para se refazer, toda esta falta dos contrastes nos quais eu me reconhecia, ela é que desancadeou meu sentimento de exílio: estar apartada desta diversidade singular e concentrada que eu tinha no Sul.
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Naquela época eu ainda não percebia a série de detalhes e riquezas no Nordeste que aparecem descritas por Vitor Ramil quando ele se refere a caos, múltiplo, variado e eclético, a diversidade que hoje provavelmente meu olhar captaria, mas eu já tinha a percepção da diversidade na cultura gaúcha, então ela devia ser, sim, mais perceptível que a lá de cima.
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Mas uma curiosidade boba, mas que me chamou a atenção na época e que não tem a ver com o texto da Estética do Frio foi a necessidade de viver em ciclo que eles têm, ainda que em um ciclo mais suave que o nosso. Eu achava que isso era uma característica nossa imposta pela vinda do frio e suas consequências, mas percebi que os sergipanos reagem aos ciclos da natureza de forma parecida com a nossa. No outono, os moradores locais ficam mais introspectivos, circulam menos, procuram-se menos, diminuem o ritmo dos exercícios físicos, freqüentam a praia para confraternizar, não para tomar banho ou pegar sol, mas não há, mesmo assim, como escapar de dourar a pele. Então quando vem a primavera, como aqui no Sul, eles saem para as ruas empolgadíssimos, cheios de energia, malham, se encontram, namoram. Depois vem o verão com seu carnaval eterno e enlouquecido e, no outono, o pico de energia é reduzido novamente. Claro que com contrastes bem mais tênues que os daqui, mas é curioso observar este lado "biológico" do ser humano em um território tão tropical quanto o deles que supostamente não necessitaria desse resguardo.
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Outra diferença está nas relações afetivas: aqui no Sul, há uma certa rigidez de limites definido entre as pessoas. É mais difícil alguém chegar na casa do outro para visitar, dormir ou tomar banho e ir entrando sem receber um convite ou sem avisar antes. No Nordeste eles não cultivam aparentemente essas formalidades que nós cultivamos. Pelo menos entre pessoas de faixas econômicas próximas.
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Finalizando as reflexões iniciais, comungo com as idéias do ensaio em vários aspectos, mas discordo de alguns pequeninos pontos, como na percepção do pampa em oposição aos morros cariocas. Os morros e montanhas são parte considerável já no próprio cenário gaúcho, na medida em que neles está concentrada boa parte da população e da diversidade cultural. Ignorá-los é reduzir bastante a diversidade local, reforçando o mito do gaúcho da identidade única. A multiplicidade referida no texto parece ser a existente no Estado e não somente a dos demais territórios brasileiros. E é curioso que um povo tão permeado pela contenção e concisão na expressão das emoções seja paradoxalmente exagerado na forma, no hiperbolismo das falas, dos tons, dos gestos - o grotesco e o sutil que aparecem na Estética.
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Outra coisa, se como relata o Vitor em sua busca pela forma ideal pra expressar o sentimento de frio "a milonga era feita da mesma matéria de que era feita a imagem do gaúcho e do pampa" ela não estaria, de certa forma, reforçando o mito do gaúcho?
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Quanto à nossa formação identitária, para mim não há mesmo como negar: nascer e viver no Rio Grande do Sul é compartilhar de uma identidade singular em relação aos tantos brasileiros que habitam o Brasil, pelo menos no que diz respeito à região litorânea do país.
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Acorde, Brasileiro!

Semana que vem tem a 2ª Edição do Acorde Brasileiro. Parece que foi ontem que acabou o primeiro...
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domingo, 16 de novembro de 2008

Tanto e tão pouco tempo

MEU DEUS COMO TEM MÚSICA LINDA NO MUNDO! - e isso que eu não conheço quase nada do existe!
Nós deveríamos vir para a Terra com alguns avatares. Um viveria voltado para a música, outro para a literatura, outro furungaria na história, outro nas artes, outro na psicanálise, na sociologia...
É bom sonhar! E não custa dinheiro, por enquanto...
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sábado, 15 de novembro de 2008

Música para chorar: lágrimas de assustadora alegria

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Quando acontece de uma música me fazer chorar, nem sempre isto acontece porque estou triste ou melancólica. Às vezes ocorre de realmente coincidir com algum momento mais introspectivo, como este de agora, mas independentemente disso a música tem este poder: o de me emocionar simplesmente por ser linda demais ou por ser uma execução mais delicada.
É o caso das que escolho para colocar aqui no blog, na minha série Música para chorar.
Não sei explicar que poder elas têm ou se são momentos em que estou mais receptiva para captar toda a beleza, não sei se é a freqüência sonora delas que me afeta mais do que as de outras. O que sei é que, às vezes, chega a doer aqui dentro, de tão lindas que elas soam.
Você não deve estar achando nada disso, não é mesmo? Tudo bem, os caminhos musicais de cada um são mesmo subjetivos.
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PS.: para acessar o vídeo direto no youtube, o endereço é: http://www.youtube.com/watch?v=sODQHhkj_YQ&feature=related
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Parece que madame estava enganada...

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Pra que discutir com madame, de Haroldo Barbosa e Janet Almeida,
na voz do ex-marido da Miúcha.
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Ironia

Sabe a mulher aquela que trabalhou a vida inteira na cordoaria da cidade? Pois é... em uma bela manhã enforcaram ela.
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O grande amador

O poeta e letrista Vinícius de Moraes amou intensamente, casou-se nove vezes, viajou bastante, bebeu muito ao longo da vida, chorou todas as suas dores e medos, fez parcerias, agregou amigos, fez amigos vários e viveu arrebatadoramente.
O que o motivava?
Segundo José Castello, na biografia O poeta da Paixão, era a tentativa de driblar a morte a todo custo.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O tempo de uma gestação

Sonhei com meu pai essa noite. Estávamos em um quarto de hospital. Eu sabia que ele morreria logo e achava que ele também sabia disso, apesar de não contarmos. A minha dúvida era se eu tocava no assunto, para que ele tivesse a oportunidade de falar a respeito, desabafar seus medos e angústias e tudo o que eu achava que ele estava sentindo, ou se ficava calada, fazendo de conta que ele voltaria pra casa. Então resolvi tocar no assunto, ele me abraçou e desandou a chorar, como uma torrente de água represada que, de repente arrebenta o muro que a estancava. Eu o abracei também e desandei a chorar junto. E então eu pude ver que ele sabia de tudo, mas não queria tirar nossas esperanças. Então eu acordei.
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Meu pai não era bobo. Ele deve ter sacado que seu tempo expiraria rapidamente, e nesse caso, não era melhor ter enfrentado tudo abertamente? Se eu estava certa quanto a ele saber de tudo, deixar ele sentindo sozinho, sem poder verbalizar nada, deve ter sido horrível. Vou me questionar ainda por muito tempo, pelo jeito.
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Esses dias li ou ouvi alguém comentando que o luto saudável dura um período de nove meses. Então em março tudo isso deve acabar. Engraçado que seja exatamente o mesmo tempo de uma gestação.
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A fonte inesgotável

Sabe aquelas perguntas de entrevista: "O que você faz para espantar a tristeza?", né?
Pois é, se tivesse que responder a uma delas diria o seguinte: tem gente que bebe, que chora, que fica irritada por estar triste. Eu toco flauta. Sim, é isso que eu faço. Quando dá, é claro, que também não vou tocar às três da madrugada, ainda mais flauta. Se fosse violão ou teclado, até daria...
Incrível como a música tem o poder de transformar as emoções da gente. É o calmante de efeito mais rápido que conheço. E tem efeito relativamente duradouro...por isso que esse povo que estuda música erudita vive com cara de paisagem campestre.
Eu aprendi alguma coisa de leitura de partitura quando era criança, mas depois me acostumei a tocar de ouvido mesmo. Acontece que, entre uma música e outra, a gente desperdiça muita nota, inventa melodias súbitas, brinca com elementos percussivos e tal. E eu sempre fico pensando que, mesmo com uma quantidade tão básica de sons como os tirados da flauta doce soprano, a mais conhecida das flautas, instrumento que não chega a abranger duas oitavas e que sozinho só permite a execução de um som por vez, diferentemente do violão e do piano que permitem a combinação simultânea de sons diversos ampliando muito o leque de possibilidades sonoras, mesmo com ela é difícil acontecer de cairmos em um fragmento já conhecido ou que soa familiar. E isso é muito louco na música. Você faz combinações e mais combinações e a fonte nunca se esgota.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O elefante

Hoje é dia dez, o penúltimo do ano, thanks God!
Só para não destoar dos outros deste ano, foi um dia emocionalmente intenso. E para o lado difícil da vida. Se é que lidar com emoções fortes e tensas chega a ser fácil em algum momento.
Para completar, queimou o motor da caixa d'água do condomínio.
Quantas horas faltam mesmo pra acabar o dia?!
Acho que eu vou pedir um colo.
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PS.: este post é só para os íntimos.
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domingo, 9 de novembro de 2008

Falhas no sistema

Odeio quando o blog apaga o post antes de eu terminar de escrever ou postar. Ele não tem nada que ficar salvando por conta! Eu não mandei fazer isso! Que saco!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Feira do Livro

Bah, amanhã vai ter Caju e Castanha na Feira...
E Cartola e Arquisarau IV e Machadinho e Guimarães e Lacan e Herencia Gaitera de San Jacinto e...e...puts! E vai dar colisão.
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Concordo plenamente...


Uma amiga minha me disse ontem: "Tu é melhor no ensaio do que na poesia." Em outras palavras: poesia não é o meu melhor. Gentil ela, né?! Ainda considerou meus rabiscos poéticos.





Refletindo a respeito, eu percebo que tenho uma concepção de poesia menos rígida que a dos meus queridos. Para mim, ela não tem que ser sempre profunda, visceral, transformadora e/ou reflexiva. Parece paradoxal o que vou dizer a seguir, mas a poesia é, em determinados momentos, um pouco o Joan Miró da palavra: o respiro, o lúdico, o primário, o encantamento no meio da dureza e da frieza do mundo.



O olho que capta e transpõe para a mão o que não é mais percebido facilmente pelas pessoas, insensibilizadas pelo embrutecimento da vida. Quando me arrisco, é isso que tenho em mente, mas sem o compromisso de acertar. E como Miró, prezo muito a liberdade de me permitir arriscar, mesmo que seja só pelo prazer de brincar com a sonoridade da palavra, ainda que "só brincar" também seja, para mim, absolutamente necessário.


Onde ela esconde a voz?!

Björk, em uma das minhas prediletas:
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Ela é fantástica! A criatividade sonora, a colocação da voz, a forma de construir as melodias e combinar os instrumentos, tanto os existentes quanto os inventados, e às vezes de forma sutil, quase imperceptível, a capacidade de se metamorfosear e aproveitar todo o seu potencial. And the lyrics...
Eu não conseguia selecionar o que colocar aqui.
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Jóga
(Lyrics by Sjón et Björk)
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All these accidents that happen
Follow the dot
Coincidence makes sense
Only with you
You don't have to speak
I feel
Emotional landscapes
They puzzle me
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Then the riddle gets solved and you push me up to this:
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State of emergency:
How beautiful to be!
State of emergency:
Is where I want to be
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All that no-one sees
You see
What's inside of me
Every nerve that hurts you heal
Deep inside of me
You don't have to speak
I feel
Emotional landscapes
They puzzle me
.
Then the riddle gets solved and you push me up to this:
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State of emergency:
How beautiful to be
State of emergency:
Is where I want to be
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State of emergency
State of emergency
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Não gostou? Foi essa que me fez ficar enlouquecida pelo cd Homogenic, em 2000. É, eu sei que ele é de 1997.
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Em queda livre

Uma vez o Paulo Coimbra Guedes comentou na aula dele que: "Fulano se jogou na piscina sem ver se tinha água dentro", se referindo a desafios ousados e impensados.
Agora estou eu aqui me jogando, não em uma piscina, mas em um abismo, sem saber sequer se tem terra me esperando, que dirá água. Pior é que eu acho que vou me estatelar!
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PS.: este post não é sobre canção ou afins.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O tempo dos jacarandás

E estamos em mais uma Feira do Livro.
Desta vez tenho que ficar um pouco de molho, apesar de ter gostado do que vi hoje. Não posso cair em tentação e livros em bando e em oferta são quase irresistíveis.
É tão bom ir lá, aprender coisas novas, descobrir outras, achar aquele livro que a gente nem sabia que existia ou do qual nem lembrávamos mais, encontrar os amigos de sempre e os amigos das Feiras e os amigos sumidos e os novos amigos. E comer acarajé. Sim, eu adoro comer acarajé na Feira do Livro! Claro que eu lavo as mãos depois, pelo bem da Feira.
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PS.: Por que nesta cor? Tsic tsic...
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O que é que a baiana tem?!

Eu conheci o trabalho deste grupo na época da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2004, quando o estado da Bahia foi o homenageado da vez. Estava furungando no estande baiano, quando me deparei com um cd do XI Festival de Música Instrumental da Bahia, gravado, ao vivo, em janeiro de 2003. Banda de Boca é um grupo da cidade de Salvador, que faz apresentações a capella, ou seja, usando apenas a voz como instrumento.
Nós realmente não conhecemos o Brasil.
Abaixo eu coloquei o vídeo da canção "Palavra", de Hiran Monteiro e Sérgio Humberto, que é a do cd do Festival:
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E então? Pessoas são ou não são música?!
PS.: Para ter mais prazer, acesse o myspace da banda.

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domingo, 2 de novembro de 2008

O casulo

Difícil não lembrar do meu pai em um dia como hoje. Mas eu estava aqui pensando que sempre que vou a um velório se reforça em mim a sensação de que o corpo físico, este em que habitamos, é apenas um casulo, sabe?! Para usarmos enquanto estamos lagartas. Então quando vem a morte, a lagarta rompe a casca e vai embora. E o que fica é aquele casco frágil e amarelado, seco, como os que vemos grudados nas árvores dos bosques e que se quebra na primeira batida. Não tem mais ninguém ali. Não faz mais sentido estar ali. O que fica é a certeza de que não tem mais volta
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Ou como diz Mario Quintana:
----------------Seu retrato está completo. ----------------------
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sábado, 1 de novembro de 2008

No tempo das cartas

Estava lendo o texto do Fabrício Carpinejar, Finados na minha caixa de mensagens, agora há pouco:
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"Fui fazer faxina em minha caixa de endereços. Limpar os nomes duplicados, uniformizar os conhecidos, distribuí-los pelas suas cidades. Dedica-se a manhã e a tarde para uma atividade que julgava cumprir em uma hora. Trabalho chato, porém indispensável. Assim como meu pai nos botava a retirar o osso do peixe para merecê-lo.

Encontrei o nome de um amigo falecido. Ao deletá-lo mecanicamente, apareceu a mensagem perguntando se tinha certeza daquilo. Vacilei. Era como se o próprio finado me questionasse se o apagaria da minha vida. Pressionado, ninguém tem certeza. Eu, muito menos.

Seria enterrá-lo de novo. Desprezar a sua lembrança.

Espiei ao lado para ver se um vulto se mexia na cortina. Respirei fundo e tratei toda aquela suposição como bobagem, estresse. Ele não conseguiria responder, o que valeria manter seu nome para ocupar espaço? (E, se por sinal replicasse, ficaria dominado pelo pavor, ainda que fosse uma resposta automática).

Mas o mal-estar não desapareceu com o meu realismo. Agravou-se. Raspava o teclado como um soletrador de piano. Não pulava de tecla. Sentei em mim, denso, com as costas do mar em meus ouvidos. Bateu uma moleza de sesta, um aborrecimento antigo." (para ler o final da história, acesse o site)

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Meu pai faleceu há alguns meses atrás. E eu não consigo apagar o número dele do meu celular. Nem o número, nem as mensagens.

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