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Sempre gostei de histórias e estórias de pessoas que quebram as regras, que seguem seu próprio nariz. As Antígonas, os Marqueses de Sade (o personagem do filme "Contos Proibidos do Marquês de Sade", de Phillip Kaufman), as Chiquinhas Gonzaga, os Vinícius de Moraes, as Julietas, os Romeus e tantos outros de filmes, da literatura e da vida real.
Sempre as admirei, para além da mera fantasia do herói ou da heroína, porque pessoas deste tipo são corajosas, amam, acreditam, elas ousam lutar pelo que as faz felizes ou pelo que acham que vale a pena. E a vida parece não gostar muito de pessoas que aceitam abrir mão do que acreditam ou sentem, mas das capazes de ousar sair dos padrões e seguir seu próprio nariz para buscar a felicidade, das que têm fé na própria força. Isto é o que a maioria costuma chamar de sorte, timing, sabedoria, etc.: conseguir perceber que o que vale a pena já vem dentro de cada um, não podendo ser comandado ou determinado pelos homens, e buscar esse Norte dentro do próprio peito, aquilo que apita dentro da gente quando uma situação desafiadora aparece nas nossas vidas. Esse apito que muitos costumam chamar de intuição.
A sociedade, com suas leis, regras e convenções, modifica-se de acordo com cada contexto e momento. O que hoje é considerado obrigatório, ilegal, pode levar à cadeia ou à morte, pecaminoso ou perigoso, amanhã pode-se descobrir que era um equívoco, que os homens se enganaram, que os homens estavam errados. Nada de novo, são homens tendo que administrar um imenso grupo de homens e tentando administrar em prol do que parece se adequar à maioria, ou quem sabe a uma minoria mais influente.
Mas aquilo que apita dentro do peito, quando vem de um sentimento de amor, quando vem da intuição, aquilo não é do domínio dos homens.
Normalmente um risco destes que desafiam as convenções, exige uma dose de determinação e de coragem, porque costuma ter um preço, que é sempre inferior à recompensa de ter seguido o próprio caminho, mas de qualquer forma, pode ser cobrado.
Não estou falando aqui de prazeres doentios, mundanos ou caprichosos, mas daquele sentimento que vem lá de dentro, do fundo da alma, que nos faz acreditar que tem uma mão maior comandando as coisas, seja qual for, e a certeza de que o que a gente quer é uma coisa boa, que vem para melhorar o mundo, para acrescentar.
Quando melhoramos as nossas vidas, as nossas emoções, quando conseguimos viver dentro de sentimentos de freqüência positiva (e a gente, lá no fundo do fundo, sabe quais são), o mundo melhora em torno, o mundo se contamina com o que estamos transparecendo.
Talvez quem esteja lendo isto ache o que penso uma obviedade, ou talvez não tenha nunca sentido algo assim. Ou talvez quem está lendo o texto até faça isto, sem ter consciência de que esteja fazendo. É como se fosse uma sensação, uma intuição, algo que fica cutucando, empurrando, como se dissesse: Vai por aqui. Tu sabe que é por aqui! Por que tu não vai?!
É por isto também, por já ter passado por situações deste tipo e tê-las seguido sem precisar me arrepender - e por ter convivido com pessoas que faziam e fazem isto -, que é difícil para mim aceitar que as pessoas se adaptem e sucumbam às regras e convenções sociais sem critério, pela obediência cega ou medo de se opor à maioria. É por isso também que valorizo tanto aqueles que conseguem sair deste circuito e seguir a intuição, ainda que, muitas vezes, sem compreender bem onde vai dar ou o porquê. Afinal, é uma intuição. Ela não vem com toda a explicação. Ela simplesmente vem.
Então, se as leis dos homens são feitas para regular a sociedade - regular um grande grupo onde existem pessoas muito diferentes, que precisam conviver entre si com um mínimo de consenso, de limites e de respeito, e para regular aquelas que não conseguem discernir limites pela própria cabeça ou que precisam ser controladas por algum motivo -, como toda a regra ou lei, elas, as leis dos homens, são arbitrárias e, em determinadas circunstâncias, burras, inadequadas ou limitadas.
Quando estas leis infringem uma lei maior, como a do amor ou a dos domínios da Arte, é dificílimo para mim aceitá-las. Como no caso do personagem Marquês de Sade do filme, que passou tudo o que passou, chegando a ser assassinado pelas leis da época, porque acreditava na própria literatura, "obscena", transgressora para os valores de então, e que hoje é perfeitamente aceita pela sociedade.
Ou como no caso de Oscar Wilde, que foi preso e teve sua vida esculhambada, sofreu humilhações, tendo até que trocar de nome, em função de ter assumido sua homossexualidade, chegando a morrer alguns anos mais tarde, em conseqüência de tudo o que enfrentou. Basicamente porque ousou questionar a lei e os valores dos homens e seguir, na vida privada, o próprio nariz, uma opção sexual que hoje é reconhecida como um direito dos seres humanos.
Ou como naqueles casos em que acontecia de a criança estar sendo criada pelo pai ou por uma outra pessoa, com muito amor, com atenção, com respeito, e com educação adequada, mas a lei dizia que a guarda deveria ser da mãe. A mãe que não valia "um ovo", que não tinha a menor condição de amar e criar uma criança. Sim, porque ao contrário do imaginário popular, nem toda a mulher nasce para ser mãe. Nem toda mulher, quando engravida, incorpora ou adquire o instinto e as qualidades adequadas para a tarefa, as qualidades atribuídas e propagadas pela sociedade nas propagandas de tv. As mães têm toda a gama de sentimentos ruins de um ser humano como qualquer outro, têm falhas, raiva, sonhos, falta de paciência, inseguranças e muitas vezes não queriam, nem planejaram , a gravidez.
Uma vez eu escrevi um texto falando destas mães na cadeira de Produção Textual. A professora, que tem filhos, me deu "C". Foi o único, dos nove ou doze textos meus da cadeira, em que não tirei "A" ou "B", por que será?!
Quando eu peguei o texto de volta, comecei a rir por dentro. O que mais eu poderia fazer diante de uma limitação destas - diante de uma professora universitária de Letras, de uma das melhores faculdades do país, que não conseguia se abstrair de seus valores na hora de avaliar a qualidade estrutural de um texto de um aluno? Rir, como o Marquês de Sade ria, quando tentavam calá-lo. Depois confesso que me arrependi. Deveria ter questionado a posição dela. Eu não costumava entrar em atrito, simplesmente continuava seguindo o meu nariz.
Talvez agora, depois deste texto, seja mais fácil para algumas pessoas entenderem minha posição e minhas atitudes ao longo dos anos. Não espero mais dos homens do que o que eles têm condições de realizar, quando impulsionados por motivos verdadeiros. Mas acredito que muitos deles não sabem bem a medida do que podem realizar, porque não deixam a razão dar lugar à intuição.