Então, fiz este texto para uma brincadeira em um outro blog e vou aproveitar e postar aqui também, já um pouquinho modificado:
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Jacaré não entrou no céu
Qual era mesmo o ano? Ah, devia ser por volta de 1984. Era o começo da abertura política, mas ainda vigorava um forte resquício de ditadura militar. Lembro que éramos todos uns fedelhos e havia a tal da Censura, que estipulava uma idade limite para tudo: para ver filme (o tempo das matinês), para ir no clube dançar (somente à tardinha, nas festas para menores), para ver televisão – é, isso não é invenção de agora, não.
Naquela época, São Leopoldo ainda era uma cidade com forte influência alemã, sem a padronização comercial das cortinas de ferro, das lojas de 1,99 e das casas de bingo e mega redes comerciais, características dos grandes centros urbanos atuais. As casas tinham personalidade, com suas varandas e jardins e com as fachadas ornamentais, de aspecto antigo e convidativo. As ruas eram estreitas e de paralelepípedos, iluminadas pelas janelas e burburinhos das residências, onde era possível ver que existia vida em movimento pro trás das paredes, uma realidade distante do desértico silêncio escuro que habita as ruas atuais. E havia o dito “valão”, a céu aberto, como se fosse um mini riacho Ipiranga, localizado onde hoje ficam os canteiros da Avenida João Corrêa. Shopping Center era uma palavra incomum no vocabulário das pessoas, menos ainda da piazada. Havia o Iguatemi, em Porto Alegre, que estava no auge da sua inauguração, um ou outro centro comercial pequeno e só. E existiam os das metrópoles, como o BarraShopping, na Barra da Tijuca, no Rio, e o primeiro Iguatemi, de Salvador.
Em São Leopoldo, os cinemas funcionavam também como ponto cultural, servindo eventualmente de palco para algum festival local. Havia dois cinemas de calçada, o Cine Brasil e o Cine Independência, chamado carinhosamente de “pulgueiro” porque, enfim, não precisa explicar, não é?! E que seria o primeiro a fechar as portas, uma década mais tarde.
Ambos, acho que pertenciam ao mesmo dono, o Seu Não-lembro-o-nome. O Cine Brasil tinha a famosa Sessão de Arte, que ocorria toda a sexta à noite e passava somente filmes que não transitavam no circuito comercial, mais ou menos o que hoje fazem nas salas da Usina do Gasômetro e Casa de Cultura, em Porto Alegre. A Sessão de Arte acabava sendo uma espécie de ponto de encontro cultural da cidade. Diziam que o dono criara a noite de sexta para poder ver os filmes que ele mesmo queria ver e que não podia porque não chegavam aos circuitos oficiais.
Nós costumávamos ir sempre. Naquelas épocas era difícil achar outras opções de filme. Não sei se as locadoras de vídeo não haviam se propagado até a região ou se elas não faziam parte do meu universo particular. Na minha vida, elas passaram a existir na segunda metade da década de 1980.
Eu tinha uma amiga com quem convivia muito nos primeiros anos de colégio. Éramos praticamente irmãs, aquela coisa de se vestir igual, de fazer o mesmo penteado, usar a Melissinha nos mesmos dias e etc. Ela era ótima, mas um pouco desligada.
Uma sexta, meus pais tiveram a idéia de nos levar juntas à Sessão de Arte, para ver o quê? Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, que havia sido filmado há pouco e que não era benquisto pelo pessoal da Ditadura Militar. Como eram anos de abertura política, filmes deste tipo geravam certa ansiedade, uma expectativa diferente, algo como saborear um doce que fora escondido dos olhos em alguma lata secreta que sabíamos existir.
Então, lá fomos nós três: eu, ela e minha mãe – meu pai não sei por que não estava desta vez.
Quando chegamos à bilheteria, minha mãe pediu três ingressos. Como eu tinha cara de mais velha, aparentando 18 ou mais, nunca houve problema de idade. Foi então que o bilheteiro olhou para a minha amiga e apontou para a tarja no cartaz: proibido para menores de 16 anos. Tínhamos 13, na época. O bilheteiro olhou pra cara dela e perguntou: Quantos anos tu tem?
Minha amiga, que sempre foi mais rápida que todo mundo, prontamente disse: Treze. – com a maior cara de pastel. Ele imediatamente respondeu: Então não pode entrar. E tu? – perguntou, me olhando. Eu abri a boca pra responder dezesseis e ela impulsiva e ingenuamente respondeu: Também! com uma cara de pastel, agora chocho.
Pronto! Ficamos as duas do lado de fora. Eu devo ter ficado de fora de todos os filmes proibidos depois disso. Sorte que não durou muito tempo.
No início da década, São Leopoldo ainda era uma cidade onde era possível qualquer um zanzar à noite, a pé e com segurança, pelas ruas da cidade, mas eu não lembro como foi o final da história. Acho que ficamos esperando minha mãe sair da sessão ou algo parecido. Ou subimos de volta para casa.
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