
Uma amiga minha me disse ontem: "Tu é melhor no ensaio do que na poesia." Em outras palavras: poesia não é o meu melhor. Gentil ela, né?! Ainda considerou meus rabiscos poéticos.
Refletindo a respeito, eu percebo que tenho uma concepção de poesia menos rígida que a dos meus queridos. Para mim, ela não tem que ser sempre profunda, visceral, transformadora e/ou reflexiva. Parece paradoxal o que vou dizer a seguir, mas a poesia é, em determinados momentos, um pouco o Joan Miró da palavra: o respiro, o lúdico, o primário, o encantamento no meio da dureza e da frieza do mundo.
O olho que capta e transpõe para a mão o que não é mais percebido facilmente pelas pessoas, insensibilizadas pelo embrutecimento da vida. Quando me arrisco, é isso que tenho em mente, mas sem o compromisso de acertar. E como Miró, prezo muito a liberdade de me permitir arriscar, mesmo que seja só pelo prazer de brincar com a sonoridade da palavra, ainda que "só brincar" também seja, para mim, absolutamente necessário.



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