quinta-feira, 5 de março de 2009

O espaço físico, o espaço virtual e a interferência deles nas relações sociais

No princípio eram as ágoras, as praças dos tempos da Grécia antiga, com suas áreas físicas amplas onde as pessoas falavam para uma quase multidão aglomerada em espaços comuns, em pleno contato físico.
Assim transcorreram séculos.
Depois surgiram as praças das cidades, não tão amplas, muitas vezes, mas ainda a céu aberto e estimulando o contato físico.
Trancorrido mais um período, não tão longo, apareceu o rádio, com a possibilidade de atingir pessoas a uma distância maior que a da voz, com um som mais potente saindo dos postes e das casas. Era o início do século XX. As pessoas ainda se concentravam nos espaços públicos ou em grandes salões para ouvir a transmissão sonora. Havia a proximidade física, o olho no olho.
Então veio a televisão, em meados do século XX, com sua tela que facilitava a compreensão da mensagem, sem exigir tanta atenção auditiva, mas que necessitava de espaços menores, em função do tamanho das imagens. O contato físico permaneceu, mas as pessoas começaram a sentar lado a lado, sem o olho no olho, para não atrapalhar a recepção da mensagem televisiva. A conversa passou a segundo plano.
Depois dela, veio o computador aliado à internet, com o monitor individual, mas com um poder de alcance que desestabilizava, de forma quase definitiva, as barreiras geográficas, enquanto atingia um número muito maior de criaturas humanas. As pessoas emudeceram por completo e, tanto elas quanto o espaço físico, passaram a ser individualizados - cada um em seu canto com sua tela particular.
E por último, pelo menos até este momento, surgiu o blog, que não somente passou a atingir um número imenso de pessoas de forma individual e virtual, mas a divulgar a vida íntima, o que vai lá dentro de cada indivíduo. Cada criatura expondo seus textos, fazendo sua escrita, democratizando, digamos assim, não somente a divulgação desta escrita, mas a exposição da intimidade particular de quem posta - de quem publica.
Na mesma proporção que o homem foi segregando-se dos seus semelhantes e individualizando o espaço físico, ele foi aumentando, teoricamente, o poder de alcancer de suas idéias. Teoricamente, porque o excesso de textos na internet está, cada vez mais, pulverizando o público leitor.
Quanto mais longe o ser humano tende a chegar para atingir outros seres, mais ele se afasta dos outros no plano das relações sociais físicas e afetivas, pois quanto maior a quantidade de pessoas possivelmente atingidas, maiores os graus de individualismo e da virtualidade da relação desenvolvida. E maior a necessidade de se comunicar e de expor as suas particularidades, de chamar a atenção, de aproximar-se dos outros humanos, ainda que de forma ilusória, no mar de monólogos que circulam hoje pelo mundo.
Claro que estou generalizando na minha análise, que a internet não virtualiza tanto o contato, aproximando, muitas vezes, pessoas que jamais se conheceriam ou se encontraríam de outra forma, mas é uma possibilidade que pode vir a acontecer mesmo.
Isto é muito maluco!
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P.S.: o texto acima foi pensado e construído a partir da leitura do livro Blog: comunicação e escrita íntima na internet, de Denise Schittine, edição 2004, e do meu próprio trabalho e pesquisa sobre a(s) cidade(s) em Chico Buarque de Holanda.
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