domingo, 5 de julho de 2009

O condicionamento dos sentidos ou como é fácil ser enganado

Quando perdemos o contato com as coisas em sua forma artesanal ou original perdemos as referências para identificá-las e reconhecer quando são reais. Assim fica fácil ser enganado e pagar caro por um alimento ou objeto pretensamente natural ou pretensamente de qualidade.
Como reconhecer as madeiras verdadeiras, com suas texturas, consistências e cheiros, se somos criados no meio de compensados e enxertos fabricados industrialmente?
Como saber reconhecer a qualidade e o valor de um objeto, se perdemos o contato com sua fabricação? Se a sua confecção não é mais motivo de brincadeiras e laboratório para o aprendizado de nossos filhos, mas apenas a representação simbólica de um prédio de concreto, fechado e cercado, de onde ele sai pronto, em plástico descartável, para ser absorvido e estragado rapidamente, sem sequer estimular a reflexão sobre as etapas que precederam sua compra? (E, nesse caso, adianta falar para estas juventudes em preservação do Meio Ambiente e em preservação do patrimônio?)
Como reconhecer o pão caseiro ou integral, se consumimos apenas os alimentos industrializados ou de fabricação induzida das redes de supermercados?
Quando deixamos de fabricar o pão perdemos a percepção do seu peso, da cor, da textura da massa, do sabor. É fácil ser enganado por um falso pão “integral” escurecido artificialmente pela adição de café ou de outros ingredientes. E o pão é apenas uma referência, entre tantos falsos alimentos.
Quando deixamos de colher as frutas no pé, perdemos a referência do sabor e do cheiro que elas exalam ao serem colhidas, não reconhecemos mais como elas são. E acabamos por nos encantar e comprar frutas enormes, coloridas, padronizadas por crescimento artificial, Passamos, então, a achar que o gosto aguado e com textura de isopor é, sim, o seu sabor natural.
Ou, no caso dos laticínios, que a gordura do leite natural ou o azedo “estragado” da käzschmier são defeitos do alimento que deve ser jogado fora por estar “vencido”.
Poderíamos também questionar o uso das luvas para cozinhar em casa, tão propagado por uma certa apresentadora de televisão que, além de usar luvas, ainda permeia o seu programa matinal com todo o tipo de notícias deprimentes e trágicas que tenham ocorrido. Um alimento preparado entre uma notícia e outra de alguma mãe que perdeu seu filho, do enterro do Michael Jackson do momento ou do jovem que assassinou sua namorada deve ficar realmente “delicioso”.
Por que a comida das nossas avós era tão boa, deixando saudades nas memórias das gerações com mais de trinta anos?!
Porque era feita com ingredientes colhidos direto da horta, em panelas grossas, consistentes, que permitiam um cozimento mais saudável e saboroso. Porque tinha a ação da mão humana propiciando a adição das nossas energias, misturando, interagindo, jogando amor e estimulando a homogeneização dos ingredientes. Porque era permitido o tempo necessário para deixar o fermento agir, para deixar o sabor penetrar. Porque as nossas avós estavam concentradas no que estavam fazendo, sem pensar nos zilhões de notícias que hoje são propagadas, de forma direta ou por tabela, pelos meios de comunicação.
Nós ainda lembramos disso tudo, mas nossos netos já não vão mais ter essas referências sensoriais e comportamentais.
Fico com pena das crianças de hoje. Elas realmente acreditarão, em um futuro bem próximo, que tocar o alimento com as mãos pode fazer mal à saúde e que vaca é mesmo a embalagem do leite Tetra Pac.
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PS.: só pra constar, eu também sou fã do Michael Jackson.
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Um comentário:

Unknown disse...

Oiiii!!!!
Acabei de colocar um link do teu blog no meu!
bjão :)
Lísia